Você provavelmente já ouviu alguma versão desta frase: “Isso não é música de verdade.”
Ela pode aparecer em uma discussão sobre funk, sertanejo, rap, música eletrônica, pop, jazz, rock ou praticamente qualquer gênero musical.
Às vezes, a afirmação vem acompanhada de uma comparação: Beethoven seria “superior” à música popular contemporânea. Jazz seria mais sofisticado do que pop. Rock antigo seria melhor do que aquilo que se produz hoje. Uma composição tecnicamente complexa teria mais valor do que uma canção construída com poucos acordes.
Mas existe realmente uma maneira objetiva de colocar todas as músicas em uma escala e determinar quais são superiores?
A pergunta parece falar apenas sobre arte. Na realidade, ela envolve psicologia, neurociência, cultura, história, aprendizagem e identidade social.
A ciência consegue medir características de uma música. Podemos comparar complexidade harmônica, estrutura rítmica, variedade melódica, dificuldade técnica, originalidade, previsibilidade e muitos outros elementos.
O problema começa quando tentamos transformar essas diferenças em uma conclusão muito maior: “Se uma música é mais complexa, então ela é necessariamente melhor.”
Essa passagem não é tão simples quanto parece.
Nosso gosto musical não depende apenas daquilo que existe dentro da música. Ele também é moldado por aquilo que aconteceu antes de começarmos a ouvi-la: nossa cultura, nossas memórias, aquilo a que fomos expostos, as pessoas com quem convivemos e até o quanto aprendemos a reconhecer determinadas estruturas musicais.
Por isso, talvez a pergunta mais interessante não seja apenas se existe uma música superior.
Talvez seja: por que temos tanta certeza de que aquilo de que gostamos é melhor?
Existe realmente música melhor do que outra?
Primeiro precisamos separar duas perguntas que costumam ser confundidas.
A primeira é: podemos comparar músicas?
Sim.
Uma obra pode apresentar estruturas harmônicas mais complexas do que outra. Uma execução pode exigir maior domínio técnico. Uma composição pode introduzir soluções inovadoras para sua época. Uma música pode exercer enorme influência histórica sobre outros compositores e artistas.
Nada disso precisa ser negado. A segunda pergunta, porém, é diferente:
essas características permitem concluir que determinada música é universalmente superior a outra?
Aqui a resposta se torna muito mais difícil.
Uma música tecnicamente complexa não necessariamente produzirá uma experiência estética mais intensa. Uma canção simples pode carregar enorme força emocional, histórica ou cultural. Uma peça criada para dança não precisa obedecer aos mesmos critérios utilizados para avaliar uma sinfonia.
Até mesmo a ideia de “complexidade” precisa ser especificada. Estamos falando de complexidade rítmica? Harmônica? Melódica? Estrutural? Técnica?
Uma música pode ser relativamente simples em uma dimensão e extremamente sofisticada em outra.
Portanto, é perfeitamente possível fazer avaliações musicais fundamentadas sem concluir que existe uma única régua capaz de organizar toda a produção musical humana do pior ao melhor.
Complexidade musical não é sinônimo de superioridade
Complexidade é frequentemente utilizada como argumento para defender que determinados estilos seriam superiores.
E existe uma razão compreensível para isso. Quando aprendemos mais sobre alguma área, começamos a perceber detalhes que antes passavam despercebidos.
Um músico treinado pode reconhecer modulações harmônicas, mudanças métricas, técnicas instrumentais ou relações estruturais que um ouvinte sem formação musical talvez não identifique conscientemente.
Isso pode transformar a experiência de escuta.
Pesquisas sobre preferência musical mostram, de fato, que experiência e treinamento musical podem influenciar aquilo que uma pessoa aprecia.
Em um estudo sobre complexidade harmônica, músicos e não músicos apresentaram padrões diferentes de preferência. De maneira geral, participantes sem treinamento musical demonstraram maior preferência por níveis mais baixos de complexidade harmônica, enquanto músicos toleraram ou apreciaram melhor níveis intermediários e mais elevados.
Mas essa mesma pesquisa oferece uma pista importante: a relação entre complexidade e prazer não segue simplesmente a fórmula “mais complexo = melhor”.
Uma hipótese tradicional da psicologia estética propõe uma relação semelhante a um U invertido: estímulos extremamente simples podem se tornar entediantes, enquanto estímulos excessivamente complexos podem parecer difíceis de processar. Muitas vezes, o maior prazer aparece em algum ponto intermediário.
Esse ponto, porém, não é igual para todas as pessoas. Experiência, familiaridade, treinamento e características individuais podem deslocá-lo.
Em outras palavras: aquilo que parece caótico para um ouvido pode ser perfeitamente organizado para outro que aprendeu aquela linguagem musical.
Isso acontece também fora da música. Quem começa a estudar vinho, pintura, literatura ou cinema passa a notar diferenças que antes eram quase invisíveis.
Conhecimento pode ampliar nossa capacidade de percepção.
Mas ampliar a percepção não significa necessariamente descobrir uma hierarquia universal já escrita na natureza.
Por que aprendemos a gostar daquilo que ouvimos?
Imagine ouvir pela primeira vez uma música construída em uma tradição completamente desconhecida para você.
Talvez o ritmo pareça estranho. Talvez você não saiba antecipar quando uma frase musical terminará. Uma resolução que seria evidente para alguém daquela cultura pode não produzir em você a mesma sensação.
Agora imagine ouvir aquela estrutura repetidamente. Aos poucos, o cérebro começa a reconhecer regularidades.
É justamente aqui que entra um dos fenômenos mais importantes para compreender o gosto musical: a familiaridade.
Décadas de pesquisas em psicologia mostram que a exposição repetida a determinados estímulos pode alterar nossas preferências. Na música, estudos também encontraram que ouvir uma composição várias vezes pode aumentar o quanto gostamos dela.
Uma pesquisa experimental publicada na revista Frontiers in Neuroscience observou que a repetição aumentou a preferência musical mesmo diante de diferentes níveis de complexidade.
Isso não significa que começaremos inevitavelmente a amar qualquer música simplesmente porque ela toca repetidamente.
Há limites e diferenças individuais. Mas demonstra algo importante: preferência não é necessariamente uma reação fixa produzida no primeiro contato.
O gosto pode ser aprendido.
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Explorar livros e análises →Com a exposição, começamos a reconhecer padrões, antecipar acontecimentos e compreender melhor aquilo que estamos ouvindo.
Uma música que inicialmente parecia confusa pode começar a fazer sentido.
Outra que parecia extraordinária pode se tornar previsível depois de centenas de repetições.
Portanto, quando dizemos “essa música é ruim”, uma parte daquilo que estamos expressando pode dizer respeito não apenas às propriedades da composição, mas também à relação que nosso cérebro desenvolveu — ou ainda não desenvolveu — com aquela linguagem musical.
O cérebro parece gostar de previsibilidade e surpresa
Uma boa parte do prazer musical envolve expectativas.
Quando ouvimos música, nosso cérebro não recebe passivamente uma sequência de sons. Ele aprende regularidades e produz previsões sobre aquilo que poderá acontecer em seguida.
Uma batida estabelece um padrão. Uma progressão harmônica sugere possíveis resoluções.
Uma melodia cria expectativas sobre sua continuação.
O compositor pode confirmar essas expectativas, atrasá-las ou surpreender o ouvinte.
É justamente esse equilíbrio entre previsibilidade e novidade que ajuda a explicar por que determinadas estruturas musicais podem ser tão envolventes.
Se tudo for completamente previsível, a experiência pode se tornar monótona.
Se nada puder ser antecipado, porém, a música pode parecer desorganizada ou difícil de acompanhar.
O interessante é que aquilo que conseguimos prever depende daquilo que aprendemos anteriormente.
Uma pessoa habituada a determinado gênero possui uma espécie de repertório implícito de expectativas.
Ela aprendeu, mesmo sem estudar teoria musical, como aquele estilo costuma funcionar.
Por isso, um especialista e um iniciante podem literalmente experimentar a mesma sequência de sons de maneiras diferentes.
Cultura ensina nossos ouvidos
A música aparece em todas as sociedades humanas estudadas sistematicamente, mas isso não significa que todas as culturas façam música da mesma maneira.
Um amplo estudo publicado na revista Science analisou descrições etnográficas e gravações musicais provenientes de diferentes sociedades.
Os pesquisadores encontraram características recorrentes: música aparece associada a contextos como dança, cuidado infantil, amor e práticas de cura.
Ao mesmo tempo, encontraram enorme diversidade nas formas pelas quais diferentes sociedades organizam sua música.
Esse resultado é especialmente importante. Ele mostra que duas ideias podem ser verdadeiras ao mesmo tempo:
a música possui características profundamente humanas e, ainda assim, é profundamente cultural.
Desde pequenos, somos expostos a determinados ritmos, escalas, timbres e maneiras de organizar sons.
Essas regularidades tornam-se familiares.
O que parece “natural” para nossos ouvidos muitas vezes possui uma longa história de aprendizagem cultural.
Isso não significa que tudo seja arbitrário ou que biologia não tenha importância.
Significa apenas que não podemos tratar nossos próprios hábitos musicais como se fossem necessariamente o padrão universal pelo qual todas as culturas deveriam ser avaliadas.
Música clássica é objetivamente superior à música popular?
Essa talvez seja a versão mais famosa da discussão. A tradição da música clássica ocidental produziu obras de enorme sofisticação.
Bach, Beethoven, Mozart, Chopin, Debussy e muitos outros compositores exploraram possibilidades harmônicas, contrapontísticas, melódicas e estruturais extraordinariamente complexas.
Negar isso seria tão inadequado quanto afirmar que toda forma musical possui exatamente as mesmas características técnicas.
Mas reconhecer essa complexidade não resolve a pergunta sobre superioridade.
Imagine comparar uma fuga de Bach com um samba criado para produzir dança, participação coletiva e interação rítmica.
Se utilizarmos como principal critério o contraponto característico de determinadas tradições europeias, Bach provavelmente vencerá.
Mas por que esse deveria ser o único critério?
Se o objetivo fosse avaliar determinadas formas de organização rítmica, improvisação, oralidade, interação corporal ou função social, poderíamos estar diante de uma comparação completamente diferente.
É aqui que muitas hierarquias musicais cometem um erro silencioso:
escolhem primeiro os critérios valorizados por determinada tradição e depois utilizam esses mesmos critérios para provar que essa tradição é superior.
Isso cria um raciocínio circular. A questão não é diminuir a música clássica.
É compreender que admirar profundamente Beethoven não exige transformar todas as demais tradições musicais em versões inferiores daquilo que Beethoven fazia.
Nem toda música precisa fazer a mesma coisa
Esse ponto ajuda a desmontar outra confusão frequente. Música pode cumprir funções muito diferentes.
Podemos ouvir música para contemplar, dançar, celebrar, protestar, rezar, trabalhar, lembrar de alguém, regular nosso humor ou simplesmente participar de uma experiência coletiva.
Uma canção infantil não fracassa por não apresentar a complexidade harmônica de uma sinfonia.
Uma música criada para uma pista de dança não precisa ser avaliada como se tivesse sido composta para análise em um conservatório.
Um canto ritual pode possuir importância que não é capturada por uma análise de número de acordes.
Isso não impede crítica artística.
É possível dizer que determinada obra é repetitiva, mal executada, pouco original ou tecnicamente limitada.
Mas uma crítica responsável precisa deixar claro qual aspecto está sendo avaliado.
Há uma enorme diferença entre dizer:
“Esta composição possui pouca diversidade harmônica”
e dizer: “Esta é uma música inferior e quem gosta dela possui gosto inferior.”
A primeira afirmação pode ser investigada.
A segunda acrescenta uma hierarquia estética e, muitas vezes, também social.
Quando gosto musical vira status social
Gosto não serve apenas para produzir prazer. Também pode funcionar como identidade.
Ao dizer que gostamos de determinado artista ou gênero, frequentemente comunicamos algo sobre quem acreditamos ser — ou sobre o grupo ao qual desejamos pertencer.
É por isso que discussões musicais podem se tornar tão emocionais.
Criticar uma banda favorita nem sempre é recebido apenas como uma avaliação da música. Pode soar como uma crítica à identidade de quem a escuta.
A sociologia investiga há muito tempo a relação entre gosto cultural e posição social.
Determinadas formas de arte historicamente adquiriram prestígio e passaram a funcionar como sinais de educação, refinamento ou pertencimento a grupos específicos.
Isso ajuda a explicar por que certas preferências são chamadas de “bom gosto”, enquanto outras são tratadas como culturalmente inferiores.
Mas status social e qualidade artística não são a mesma coisa.
O fato de uma obra ser apreciada pelas elites não prova sua superioridade universal.
Da mesma forma, o fato de uma música ser extremamente popular não prova nem sua qualidade nem sua falta de qualidade.
Popularidade não é sinônimo de excelência. Prestígio também não.
O gosto musical revela inteligência?
A ideia de que pessoas inteligentes escutariam determinados gêneros aparece frequentemente em redes sociais.
Às vezes, essas afirmações vêm acompanhadas de listas extremamente específicas:
“Pessoas inteligentes preferem música clássica.”
“Quem gosta de rock tem QI maior.”
“Certos gêneros indicam pouca inteligência.”
Essas conclusões normalmente vão muito além do que os estudos permitem afirmar.
Pesquisadores já encontraram associações entre preferências musicais e características individuais. Personalidade, idade, sexo, escolaridade, contexto social e outras variáveis podem apresentar relações estatísticas com aquilo que ouvimos.
Um estudo com mais de 36 mil participantes, por exemplo, encontrou associações entre dimensões de personalidade e preferências por diferentes estilos musicais. Entretanto, idade, sexo e renda apresentaram, em vários casos, relações mais fortes com as preferências do que os próprios traços de personalidade.
Outro estudo realizado com 1.050 participantes brasileiros encontrou relações entre preferência musical, personalidade e fatores sociodemográficos, além de indicar a importância do próprio contexto cultural brasileiro.
Esses resultados são interessantes.
Mas correlação não transforma playlist em teste psicológico.
Conhecer os artistas favoritos de uma pessoa não permite determinar com segurança sua inteligência, caráter, profundidade ou valor humano.
Transformar resultados estatísticos de grupos em julgamentos individuais é justamente um dos erros mais comuns na divulgação científica.
Por que temos a sensação de que a música antiga era melhor?
Outra afirmação recorrente é: “Antigamente se fazia música de verdade.”
Existem razões legítimas para criticar aspectos da indústria musical contemporânea. Tecnologias, modelos econômicos, plataformas digitais e hábitos de consumo modificaram profundamente a maneira como músicas são produzidas, divulgadas e consumidas.
Mas nossa percepção do passado também sofre um poderoso filtro.
Não lembramos de todas as músicas ruins lançadas há quarenta ou cinquenta anos.
Grande parte delas simplesmente desapareceu.
O repertório do passado que chega até nós passou por uma espécie de seleção histórica.
Continuamos ouvindo muitos dos artistas, discos e canções que sobreviveram culturalmente.
Enquanto isso, quando pensamos no presente, somos expostos simultaneamente ao excelente, ao mediano e ao descartável.
A comparação, portanto, pode ser injusta: comparamos os sobreviventes de décadas passadas com praticamente tudo que está sendo produzido hoje.
Existe ainda uma dimensão autobiográfica.
A música da juventude frequentemente fica associada a acontecimentos emocionalmente importantes: primeiras amizades, paixões, descobertas, festas, viagens e transformações pessoais.
Quando ouvimos essas músicas anos depois, não estamos escutando apenas sons.
Estamos reencontrando partes da nossa própria história.
Isso pode fazer o passado musical parecer particularmente intenso.
Se não existe uma escala universal, então toda música é igualmente boa?
Não.
Essa conclusão seria o extremo oposto do problema inicial.
Dizer que não existe uma régua científica universal capaz de classificar todas as músicas não significa dizer que nenhuma avaliação é possível.
Podemos discutir qualidade de execução. Podemos estudar inovação. Podemos analisar domínio técnico.
Podemos comparar riqueza harmônica, precisão rítmica, coerência estrutural, expressividade, originalidade e influência histórica.
Especialistas podem fazer avaliações extremamente sofisticadas dentro de determinada tradição musical.
A diferença está em reconhecer os limites da conclusão.
Uma composição pode ser tecnicamente mais complexa sem ser necessariamente mais emocionante.
Uma performance pode ser mais virtuosa sem ser mais significativa para determinado ouvinte.
Uma obra pode possuir enorme importância histórica sem se tornar prazerosa para todas as pessoas.
Qualidade musical possui dimensões avaliáveis. “Superioridade absoluta” é uma afirmação muito maior.
Podemos educar nosso gosto musical?
Talvez essa seja uma pergunta mais produtiva do que tentar descobrir qual gênero é melhor. Sim, nosso gosto pode se transformar.
Familiaridade, aprendizagem e experiência alteram aquilo que conseguimos perceber.
Uma pessoa que começa a ouvir jazz talvez inicialmente perceba apenas uma sequência difícil de acompanhar. Com o tempo, pode começar a reconhecer padrões, improvisações e relações entre os instrumentos.
Alguém que nunca ouviu música clássica pode achar determinadas obras longas ou repetitivas. Depois de compreender suas estruturas, talvez passe a perceber acontecimentos que antes não eram evidentes.
O mesmo pode acontecer com samba, rap, música eletrônica, metal, música indiana, africana ou qualquer outra tradição.
Educar o gosto, portanto, não precisa significar substituir aquilo de que gostamos por aquilo que alguém declarou culturalmente superior.
Pode significar aumentar nosso repertório perceptivo.
Escutar algo desconhecido mais de uma vez. Conhecer seu contexto.
Descobrir como aquela música é construída.
Perceber aquilo que ouvintes familiarizados com o gênero percebem.
Nesse sentido, educação musical não diminui necessariamente o prazer simples.
Ela pode acrescentar novas maneiras de ouvir.
Talvez exista uma forma mais interessante de ter “bom gosto”
Há algo curioso na maneira como frequentemente usamos a expressão “bom gosto”.
Ela costuma significar gostar das coisas certas.
Dos compositores certos.
Dos livros certos.
Dos filmes certos.
Como se cultura fosse uma prova na qual existe uma lista previamente estabelecida de respostas corretas.
Mas talvez exista outra maneira de pensar.
Uma pessoa musicalmente curiosa pode amar uma sinfonia de Beethoven e também procurar entender por que milhões de pessoas encontram significado em um gênero completamente diferente.
Ela pode perceber complexidade quando ela existe sem exigir complexidade em todas as experiências.
Pode distinguir preferência pessoal de julgamento objetivo.
Pode reconhecer excelência técnica sem transformar técnica em medida de valor humano.
E pode dizer “isso não é para mim” sem precisar concluir “isso não deveria ser para ninguém”.
Talvez um gosto verdadeiramente desenvolvido seja menos definido pela quantidade de coisas que conseguimos desprezar e mais pela quantidade de coisas que conseguimos compreender.
Então existe música “superior”?
Se a palavra “superior” significar mais complexa em determinada dimensão, mais tecnicamente exigente, mais influente historicamente ou mais inovadora segundo determinados critérios, então sim: músicas podem ser comparadas e algumas podem superar outras em aspectos específicos.
Mas se “superior” significar uma obra que a ciência conseguiu demonstrar ser universalmente melhor do que outras formas musicais, independentemente de cultura, finalidade, experiência e critérios adotados, a evidência disponível não sustenta uma conclusão tão simples.
A música é simultaneamente estrutura e experiência.
Ela acontece no som, mas também acontece no cérebro de quem escuta.
Acontece dentro de culturas.
Atravessa gerações.
Carrega memória, identidade e contexto.
É por isso que duas pessoas podem ouvir exatamente a mesma canção e experimentar coisas profundamente diferentes.
Talvez a ciência não consiga nos entregar uma lista definitiva das melhores músicas da humanidade.
Mas ela pode fazer algo mais interessante.
Pode nos mostrar por que nosso gosto parece tão pessoal mesmo sendo influenciado por tantas forças que começaram a agir muito antes de apertarmos o botão de play.
E talvez essa compreensão produza uma forma diferente de sofisticação musical:
não a necessidade de provar que nossa música é superior, mas a capacidade de ouvir melhor — inclusive aquilo que ainda não aprendemos a gostar.

Veja também
Se você deseja aprofundar a relação entre música, cérebro, prazer e comportamento, estes conteúdos complementam esta reflexão:
- O Que a Música Faz com o Seu Cérebro? Emoções, Memórias e Prazer Explicados pela Ciência — aprofunda como expectativa, recompensa, memória e emoção participam da experiência musical.
- Nação Dopamina vale a pena? — ajuda a compreender como recompensa, prazer e aprendizagem influenciam nossos comportamentos e preferências.
- Pense de Novo — uma reflexão sobre a dificuldade de revisar crenças e por que podemos nos apegar tanto às nossas próprias opiniões.
- A Mente Moralista — mostra como julgamentos, identidade de grupo e intuições podem influenciar aquilo que consideramos certo, errado ou superior.
- Como Aproveitar Mais a Vida Mesmo Quando Nem Tudo Está Bem — discute atenção, experiência e a importância de perceber com mais profundidade aquilo que já faz parte da vida cotidiana.
Referências
Mehr, S. A., Singh, M., Knox, D., et al. (2019). Universality and diversity in human song. Science, 366(6468), eaax0868. Acessar estudo.
Madison, G., & Schiölde, G. (2017). Repeated Listening Increases the Liking for Music Regardless of Its Complexity: Implications for the Appreciation and Aesthetics of Music. Frontiers in Neuroscience, 11, 147. Acessar estudo.
Freitas, C., Manzato, A. J., Burini, R. C., Taylor, M. J., & Lerch, J. P. (2018). Music Preferences and Personality in Brazilians. Frontiers in Psychology, 9, 1488. Acessar estudo.
North, A. C. (2010). Individual differences in musical taste. The American Journal of Psychology, 123(2), 199–208. Acessar estudo.
Marin, M. M., Lampatz, A., Wandl, M., & Leder, H. (2016). Estudos sobre complexidade, experiência musical e preferência estética são discutidos na literatura contemporânea sobre cognição musical. Uma investigação mais recente sobre complexidade harmônica em músicos e não músicos pode ser consultada em: Musicians and non-musicians show different preference profiles for single chords of varying harmonic complexity.
Güçlütürk, Y., Jacobs, R. H. A. H., & van Lier, R. (2019). Decomposing Complexity Preferences for Music. Frontiers in Human Neuroscience, 13, 119. Acessar estudo.


