Por Que Temos Tanta Necessidade de Ter Certeza?

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Há perguntas que parecem simples, mas conseguem ocupar a mente durante horas: “Será que tomei a decisão certa?”, “E se esse sintoma for algo grave?”, “Será que essa pessoa ainda me ama?”, “O que vai acontecer comigo daqui a alguns anos?”. Em outros momentos, as perguntas são maiores: existe um sentido para a vida? Há algo depois da morte? Como podemos saber se aquilo em que acreditamos é verdadeiro?

Em todas essas situações existe algo em comum: a dificuldade de permanecer diante de uma resposta incompleta. Não saber pode produzir desconforto, e esse desconforto frequentemente nos leva a procurar explicações, garantias, opiniões, exames, previsões ou qualquer coisa capaz de devolver a sensação de que sabemos o que está acontecendo.

Essa busca não é necessariamente um problema. Antecipar acontecimentos, procurar informações e reduzir incertezas são capacidades importantes para a sobrevivência e para a tomada de decisões. O problema aparece quando deixamos de buscar conhecimento e começamos a exigir da realidade um tipo de garantia que ela raramente consegue oferecer.

A psicologia possui um conceito especialmente útil para compreender esse fenômeno: intolerância à incerteza. Em termos gerais, ele descreve a tendência de reagir negativamente quando não sabemos o que acontecerá ou quando uma situação admite diferentes possibilidades.

Mas por que o “não sei” pode ser tão desconfortável? E por que algumas pessoas conseguem conviver relativamente bem com dúvidas enquanto outras sentem uma necessidade muito maior de encontrar respostas definitivas?

Por que nossa mente procura tanta previsibilidade?

Imagine que você está caminhando à noite e escuta um barulho atrás de você. Se soubesse imediatamente que foi apenas um galho caindo, provavelmente continuaria andando. Se soubesse que existe alguém correndo em sua direção, poderia agir rapidamente. A situação mais desconfortável, entretanto, pode ser justamente aquela em que você não consegue identificar o que aconteceu.

A incerteza dificulta a preparação. Quando conhecemos um perigo, podemos avaliar alternativas; quando não sabemos se existe perigo, precisamos considerar diferentes possibilidades ao mesmo tempo. Por isso, antecipar o futuro e aprender regularidades do ambiente são funções extremamente úteis.

Isso ajuda a compreender por que buscamos previsibilidade em áreas muito menos dramáticas da vida. Fazemos planos, acompanhamos previsões do tempo, perguntamos quando alguém chegará, calculamos riscos financeiros e queremos saber o resultado de um exame médico. Reduzir incerteza permite organizar o comportamento.

A dificuldade está em reconhecer que previsibilidade nunca é completa. Podemos diminuir riscos, reunir evidências e fazer boas estimativas, mas quase nenhuma decisão importante vem acompanhada de garantia absoluta.

É nesse espaço entre aquilo que podemos razoavelmente saber e aquilo que gostaríamos de garantir que nasce boa parte da nossa necessidade de ter certeza.

O que é intolerância à incerteza?

Na psicologia, a intolerância à incerteza tem sido estudada há décadas. O conceito não significa simplesmente não gostar de dúvidas — algo bastante comum —, mas envolve diferenças na maneira como as pessoas pensam, sentem e agem diante de situações incertas.

Uma pessoa com maior intolerância à incerteza pode interpretar o desconhecido de maneira particularmente negativa. A possibilidade de algo dar errado pode ganhar peso excessivo, enquanto a ausência de garantias pode parecer, por si só, perigosa ou insuportável.

Isso pode aparecer em situações corriqueiras. Uma mensagem visualizada e não respondida pode gerar inúmeras interpretações; uma pequena sensação corporal pode iniciar uma longa procura por explicações; uma decisão profissional pode ser adiada porque nenhuma opção parece suficientemente segura.

É importante não transformar esses comportamentos automaticamente em sintomas de um transtorno. Pessoas sem diagnóstico psicológico também variam bastante na maneira como respondem à incerteza. Ao mesmo tempo, pesquisas mostram que níveis mais elevados de intolerância à incerteza estão associados a diferentes formas de sofrimento emocional, razão pela qual o conceito passou a ser estudado como um fator transdiagnóstico, isto é, relevante para compreender fenômenos que atravessam diferentes categorias clínicas.

Incerteza e ansiedade estão relacionadas, mas não são a mesma coisa

A relação entre ansiedade e futuro ajuda a entender por que a incerteza recebe tanta atenção na pesquisa psicológica. Diferentemente do medo provocado por uma ameaça claramente presente, a ansiedade frequentemente envolve antecipação: algo pode acontecer, embora ainda não saibamos se acontecerá.

Uma influente revisão publicada na Nature Reviews Neuroscience descreveu a ansiedade como um estado orientado para o futuro no qual mudanças cognitivas, emocionais e comportamentais aparecem diante da incerteza sobre possíveis ameaças.

Isso não significa que toda preocupação com o futuro seja patológica. Antecipar problemas pode nos levar a contratar um seguro, estudar para uma prova ou fazer uma reserva financeira. A preocupação possui uma função quando nos ajuda a identificar um problema e tomar alguma providência.

Presente

Entretanto, existe uma diferença entre pensar para resolver e pensar para tentar sentir certeza. No segundo caso, a mente pode continuar trabalhando mesmo quando já não existe informação nova capaz de resolver a questão.

“Mas e se acontecer?”

Surge uma resposta.

“E se essa resposta estiver errada?”

Surge outra explicação.

“Mas como posso ter certeza?”

Quando o objetivo deixa de ser tomar uma decisão razoável e passa a ser eliminar completamente a incerteza, o pensamento pode entrar em um circuito sem um ponto natural de encerramento.

A necessidade de controle pode ser uma tentativa de reduzir o desconhecido

Controle e certeza estão relacionados, embora não sejam exatamente a mesma coisa. Quanto maior nossa capacidade de controlar uma situação, mais previsível ela tende a parecer. É por isso que fazer planos, criar rotinas e organizar informações frequentemente produz alívio.

O controle é extremamente útil quando existe algo que realmente podemos controlar. Podemos escolher quanto estudar, decidir se faremos atividade física, estabelecer limites em um relacionamento ou organizar melhor nossas finanças.

O problema surge quando tentamos aplicar a mesma lógica a acontecimentos que dependem de inúmeras variáveis externas. Não podemos garantir que uma relação nunca terminará, que uma escolha profissional será perfeita ou que nenhuma doença surgirá no futuro.

Quando confundimos responsabilidade com controle absoluto, podemos acabar tentando administrar aquilo que está além do nosso alcance. A consequência paradoxal é que, quanto mais exigimos garantias, mais evidente se torna a quantidade de coisas que não podemos garantir.

Por que procuramos confirmação repetidamente?

Uma maneira comum de lidar com a dúvida é procurar confirmação. Perguntamos a alguém se fizemos a escolha certa, pesquisamos novamente uma informação, verificamos se a porta está fechada ou buscamos mais uma opinião.

Em muitas circunstâncias isso é perfeitamente racional. Uma segunda opinião médica, por exemplo, pode fornecer informação relevante. O ponto importante é observar o que acontece depois da resposta.

Quando a busca é por informação, uma resposta suficientemente confiável permite avançar. Quando a busca é por certeza absoluta, o alívio pode durar pouco. Logo aparece uma nova dúvida que exige outra confirmação.

Pesquisas longitudinais recentes sobre intolerância à incerteza encontraram associações com estratégias como busca de reafirmação, ruminação, supressão de pensamentos e evitação experiencial. Isso não significa que qualquer pessoa que peça confirmação esteja apresentando um problema psicológico. O que importa é o padrão e a função que o comportamento assume.

Uma pergunta útil, portanto, é: estou procurando uma informação que ainda não possuo ou estou procurando sentir novamente a segurança que a resposta anterior já não consegue produzir?

Quando uma resposta definitiva parece melhor do que uma resposta incompleta

Outro conceito relacionado é a necessidade de fechamento cognitivo. Ele se refere, de maneira simplificada, ao desejo de chegar a uma resposta firme e reduzir a ambiguidade.

Em certas situações, isso é vantajoso. Nem sempre temos tempo para analisar indefinidamente todas as possibilidades. Um médico em uma emergência, um motorista diante de um obstáculo ou alguém tomando uma decisão sob prazo precisa encerrar a análise e agir.

Mas a necessidade de fechamento também ajuda a compreender por que uma explicação clara pode parecer psicologicamente atraente mesmo quando as evidências são incompletas. A dúvida mantém possibilidades abertas; uma resposta firme encerra essa tensão.

Isso cria uma distinção importante entre sentir certeza e possuir conhecimento. Podemos estar extremamente convencidos de algo falso e profundamente inseguros diante de algo verdadeiro. A intensidade da convicção não funciona como medida automática da qualidade das evidências.

Em assuntos complexos, a resposta intelectualmente mais responsável às vezes é justamente aquela que oferece menos conforto: “ainda não sabemos”.

Relacionamentos mostram como buscamos garantias impossíveis

Poucos lugares tornam nossa necessidade de certeza tão evidente quanto os relacionamentos. Gostar de alguém nos torna vulneráveis porque parte do resultado depende de outra pessoa, e nenhuma quantidade de análise permite controlar completamente seus sentimentos futuros.

Podemos procurar sinais: o tempo de uma resposta, uma mudança de comportamento, uma palavra diferente, uma expressão facial. Informações sociais realmente importam, mas, quando a necessidade de certeza cresce, detalhes ambíguos podem começar a receber interpretações excessivas.

Surge então uma tentativa impossível: obter hoje uma garantia sobre aquilo que outra pessoa sentirá amanhã.

Relações saudáveis podem oferecer confiança, compromisso e previsibilidade, mas não eliminam completamente a vulnerabilidade. Amar alguém implica aceitar que existe outra consciência envolvida, com liberdade, mudanças e escolhas próprias.

Na saúde, não saber pode ser especialmente difícil

A incerteza também se torna poderosa quando envolve saúde. Um sintoma pode ter diversas explicações, e a medicina frequentemente trabalha com probabilidades, investigação e diagnóstico diferencial, não com certezas instantâneas.

Nesse contexto, procurar atendimento médico quando necessário é uma atitude responsável. O problema seria concluir que qualquer busca por informação médica representa ansiedade — não representa.

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Mas existe uma diferença entre investigar adequadamente um sintoma e acreditar que somente estaremos seguros quando conseguirmos excluir absolutamente todas as possibilidades negativas. Na prática, exames reduzem incertezas, mas raramente transformam a existência humana em risco zero.

A maturidade diante da saúde exige uma combinação difícil: levar riscos reais a sério sem exigir que a medicina ofereça garantias que ela não pode oferecer.

Religião e questões existenciais também lidam com o desconhecido

A necessidade humana de compreender aquilo que não podemos observar diretamente não se limita à vida cotidiana. Questões sobre morte, propósito, origem do universo e sentido da existência acompanham diferentes culturas há milênios.

Religiões oferecem respostas para algumas dessas perguntas, assim como tradições filosóficas apresentam diferentes maneiras de pensar sobre elas. Para muitas pessoas, crenças religiosas também envolvem comunidade, identidade, valores, rituais, experiências pessoais e tradição; portanto, seria reducionista explicar a religião simplesmente como uma tentativa de escapar da incerteza.

Ao mesmo tempo, questões existenciais ilustram perfeitamente nosso tema porque muitas delas não admitem o mesmo tipo de verificação utilizado para determinar a temperatura da água ou a distância entre duas cidades.

Diante disso, pessoas podem chegar a posições muito diferentes: fé religiosa, agnosticismo, ateísmo, espiritualidade ou diferentes combinações de dúvida e convicção.

O aspecto psicologicamente interessante não é decidir aqui qual posição está correta, mas perceber como seres humanos constroem diferentes maneiras de viver diante de perguntas para as quais talvez não consigam obter certeza completa.

O perigo das certezas que chegam rápido demais

Se a incerteza é desconfortável, explicações simples possuem uma vantagem psicológica: elas encerram perguntas. Isso pode ajudar a compreender parte da atração exercida por narrativas que transformam acontecimentos complexos em histórias nas quais existe uma causa única, um culpado evidente ou uma resposta capaz de explicar tudo.

Isso não significa que toda explicação simples seja falsa. Algumas coisas realmente possuem explicações relativamente simples. O problema aparece quando a sensação de fechamento passa a substituir a avaliação das evidências.

Ciência, em seu melhor funcionamento, opera de maneira quase oposta. Uma conclusão pode ser forte e bem sustentada, mas permanece proporcional às evidências disponíveis. Novos dados podem corrigir modelos anteriores, e reconhecer limitações não é sinal de fraqueza científica.

Existe uma diferença profunda entre dizer “não podemos saber nada” e dizer “isto é o que as melhores evidências indicam até agora”. A segunda posição permite conhecimento sem exigir infalibilidade.

Como aprender a tolerar melhor o “não sei”?

Tolerar incerteza não significa gostar dela, abandonar planos ou permanecer passivo. Significa desenvolver a capacidade de continuar funcionando quando alguma parcela do futuro permanece aberta.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2024 encontrou que intervenções psicoterapêuticas podem reduzir a intolerância à incerteza, especialmente quando ela é diretamente trabalhada. Outra meta-análise, reunindo 91 estudos e mais de 30 mil participantes, encontrou relações entre maior intolerância à incerteza e padrões menos adaptativos de regulação emocional.

Na vida cotidiana, uma distinção particularmente útil é separar incerteza que pode ser reduzida de incerteza que precisa ser tolerada. Se você não sabe quando vence uma conta, pode consultar a data. Se não sabe se uma decisão terá exatamente o resultado esperado daqui a cinco anos, nenhuma quantidade de pensamento produzirá essa informação hoje.

Também ajuda substituir a pergunta “como posso ter certeza?” por perguntas mais realistas: “quais evidências tenho?”, “qual é a explicação mais provável?”, “há alguma informação importante que ainda preciso buscar?” e “com o que sei agora, qual decisão é razoável?”.

Essa mudança não elimina o desconhecido. Ela muda o padrão exigido para agir.

Talvez maturidade não seja encontrar certeza para tudo

Há uma promessa silenciosa por trás de muitas preocupações: se pensarmos o suficiente, pesquisarmos mais um pouco ou encontrarmos a explicação perfeita, finalmente chegaremos a um lugar no qual nenhuma dúvida importante permanecerá.

Provavelmente esse lugar não existe.

A vida envolve decisões tomadas com informações incompletas, relações cujo futuro não podemos garantir, corpos que mudam, acontecimentos inesperados e perguntas que talvez permaneçam abertas durante muito tempo. Isso não significa que conhecimento seja inútil. Pelo contrário: quanto mais reconhecemos os limites da certeza, mais importante se torna distinguir boas evidências de convicções confortáveis.

Talvez, portanto, a alternativa à necessidade excessiva de certeza não seja viver perdido na dúvida. É aprender uma postura mais equilibrada: buscar informação quando ela existe, revisar crenças quando aparecem novas evidências, tomar decisões razoáveis e reconhecer quando chegamos ao limite daquilo que podemos saber.

Existe uma diferença entre dizer “não sei” porque nunca procuramos compreender e dizer “não sei” depois de reconhecer honestamente os limites do conhecimento disponível.

O segundo “não sei” não representa necessariamente ignorância. Em algumas situações, pode representar uma das formas mais maduras de conhecimento.

Veja também

Por Que Temos Tanta Necessidade de Ter Certeza - infográficoReferências

Grupe, D. W., & Nitschke, J. B. (2013). Uncertainty and anticipation in anxiety: an integrated neurobiological and psychological perspective. Nature Reviews Neuroscience, 14, 488–501. Acessar estudo.

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Sahib, A., Chen, J., Cárdenas, D., & Calear, A. L. (2023). Intolerance of uncertainty and emotion regulation: A meta-analytic and systematic review. Clinical Psychology Review, 101, 102270. Acessar estudo.

Sahib, A., Chen, J., Cárdenas, D., Calear, A. L., & Wilson, C. (2024). Emotion regulation mediates the relation between intolerance of uncertainty and emotion difficulties: A longitudinal investigation. Journal of Affective Disorders, 364, 194–204. Acessar estudo.

Näsling, J., Åström, E., Jacobsson, L., & Ljungberg, J. K. (2024). Effect of Psychotherapy on Intolerance of Uncertainty: A Systematic Review and Meta-Analysis. Clinical Psychology & Psychotherapy, 31(4), e3026. Acessar estudo.

Shihata, S., McEvoy, P. M., Mullan, B. A., & Carleton, R. N. (2016). Intolerance of uncertainty in emotional disorders: What uncertainties remain? Journal of Anxiety Disorders, 41, 115–124. Acessar estudo.

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