Por que procuramos Deus quando estamos com medo?

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Em momentos comuns da vida, alguém pode passar horas, dias ou até anos sem pensar profundamente em Deus. Mas basta um diagnóstico assustador, uma turbulência forte durante um voo, uma madrugada no hospital ou a sensação de que algo importante está completamente fora de controle para que uma oração apareça quase espontaneamente: “Deus, por favor, me ajude”.

Esse comportamento atravessa culturas e épocas, mas levanta uma pergunta fascinante: por que o medo pode nos aproximar de Deus? A psicologia da religião oferece algumas respostas possíveis envolvendo nossa busca por proteção, segurança e significado diante da incerteza. Nenhuma delas, porém, determina se Deus existe ou não. Explicar psicologicamente por que alguém busca Deus é muito diferente de responder à questão filosófica sobre a existência divina.

O que acontece quando sentimos medo?

O medo direciona nossa atenção para possíveis ameaças e aumenta nossa necessidade de encontrar segurança. Quando somos crianças, essa segurança frequentemente vem das pessoas que cuidam de nós. Mesmo na vida adulta, continuamos recorrendo aos outros diante de situações difíceis: telefonamos para alguém de confiança, buscamos companhia, pedimos conselhos ou simplesmente queremos sentir que não estamos sozinhos.

Para muitas pessoas religiosas, existe ainda outra possibilidade: buscar proximidade com Deus. É justamente nesse ponto que uma das linhas mais interessantes da psicologia da religião encontra a chamada teoria do apego, área da psicologia que estuda como construímos vínculos relacionados à proximidade, proteção e segurança emocional.

Deus pode funcionar como uma figura protetora?

Pesquisadores vêm investigando há décadas se a relação de algumas pessoas com Deus apresenta características semelhantes às encontradas nos vínculos de apego. Uma revisão publicada na Current Opinion in Psychology mostrou que, para muitos indivíduos religiosos, Deus pode ser experimentado psicologicamente como uma figura de apego e uma fonte percebida de segurança e proteção.

Dois conceitos ajudam a entender essa ideia: porto seguro e base segura. Um porto seguro é aquilo para o qual buscamos retornar quando estamos ameaçados ou sofrendo. Já uma base segura oferece a sensação de proteção necessária para que possamos continuar enfrentando e explorando o mundo.

Para alguém que acredita em um Deus disponível, poderoso e protetor, recorrer a Ele durante uma crise pode cumprir parte dessa função psicológica. Isso ajuda a compreender por que pessoas que quase não rezam em situações comuns podem sentir uma necessidade intensa de oração diante de uma doença, acidente, perda ou ameaça.

Não significa necessariamente que o medo tenha criado aquela crença. Pode significar simplesmente que, diante do perigo, uma crença que já existia passou a ocupar um lugar muito mais importante.

O que acontece quando a ameaça é real?

Essa hipótese não foi investigada apenas em situações abstratas. Um estudo longitudinal acompanhou sobreviventes da enchente catastrófica ocorrida na Louisiana, nos Estados Unidos, em 2016. Os participantes foram entrevistados aproximadamente quatro semanas e novamente seis meses depois do desastre.

Entre os sobreviventes religiosos estudados, Deus apareceu frequentemente como fonte percebida de proteção, conforto, força e cuidado. Essa representação foi particularmente relevante entre pessoas diretamente atingidas pela inundação ou que já haviam enfrentado outro desastre anteriormente.

O estudo não demonstra que todas as pessoas respondem a catástrofes tornando-se mais religiosas. O resultado é mais específico: para muitos daqueles sobreviventes que já possuíam uma relação religiosa com Deus, essa relação ganhou características associadas à busca por segurança em um momento de enorme vulnerabilidade.

Por que procuramos Deus quando perdemos o controle?

O medo frequentemente vem acompanhado de outra experiência desconfortável: perceber que nossas possibilidades de ação são limitadas. Podemos procurar um médico, seguir um tratamento, tomar precauções e pedir ajuda, mas existem situações nas quais não conseguimos garantir o resultado.

É justamente nesses momentos que a religião pode oferecer uma maneira de interpretar a incerteza. Para algumas pessoas, acreditar que existe uma presença maior capaz de ouvir, acompanhar ou proteger modifica a experiência de enfrentar algo aparentemente incontrolável.

Isso não significa necessariamente acreditar que “nada de ruim vai acontecer”. A segurança proporcionada pela fé pode assumir formas mais sutis: acreditar que não se está sozinho, encontrar algum significado no sofrimento ou sentir que ainda existe alguém a quem recorrer quando as possibilidades humanas parecem ter chegado ao limite.

Talvez seja por isso que uma oração possa surgir justamente depois de fazermos tudo o que estava ao nosso alcance. Quando nosso controle termina, a necessidade humana de encontrar alguma forma de segurança não desaparece.

A fé realmente pode trazer conforto?

As pesquisas sugerem que sim, mas com uma ressalva importante: depende muito de como a religião é vivenciada. Uma meta-análise que reuniu 49 estudos examinou diferentes maneiras pelas quais as pessoas utilizam a religião para enfrentar situações estressantes.

Presente

Em termos simples, os pesquisadores encontraram diferenças entre usar a fé como fonte de apoio e viver a religião de uma maneira marcada por conflito, culpa ou sensação de abandono.

Quando a pessoa encontra na religião esperança, apoio espiritual, significado ou sensação de proximidade com Deus, os resultados tendem a estar associados a uma adaptação psicológica mais favorável diante do estresse. Por outro lado, quando alguém interpreta seu sofrimento como punição divina, acredita ter sido abandonado por Deus ou entra em intenso conflito com suas próprias crenças, os resultados podem ser bastante diferentes.

Portanto, perguntar simplesmente se “religião faz bem” elimina uma diferença essencial. A mesma religião que para alguém funciona como fonte de segurança pode se transformar, para outra pessoa, em uma fonte adicional de angústia.

Nem toda experiência religiosa é reconfortante

Esse ponto impede uma interpretação romantizada da religião. Se Deus pode ser experimentado como presença protetora, também pode existir conflito nessa relação. Uma tragédia pode fortalecer a fé de algumas pessoas e provocar dúvidas profundas em outras.

Até mesmo entre os sobreviventes da enchente da Louisiana houve participantes que relataram experiências religiosas mais negativas depois do desastre, embora fossem minoria naquele estudo. Isso ajuda a mostrar por que não devemos presumir que sofrimento e medo aproximam automaticamente alguém de Deus.

Diante da mesma vulnerabilidade, uma pessoa pode pensar: “Deus está comigo”. Outra pode perguntar: “Se Deus está comigo, por que permitiu que isso acontecesse?”.

As duas reações mostram algo importante: a religião não elimina necessariamente a angústia. Em determinadas circunstâncias, ela também pode fornecer a linguagem por meio da qual a própria angústia é expressada.

Isso significa que acreditamos em Deus apenas porque temos medo?

Não. Essa seria uma conclusão muito maior do que as evidências científicas permitem. O fato de uma crença desempenhar determinada função psicológica não explica necessariamente sua origem completa — e muito menos determina se aquilo em que a pessoa acredita é verdadeiro ou falso.

Alguém pode acreditar em Deus por influência familiar, tradição cultural, experiências religiosas pessoais, argumentos filosóficos, participação em uma comunidade, interpretação de acontecimentos da própria vida ou pela combinação de vários desses fatores. A busca por proteção diante do medo representa apenas uma das dimensões estudadas pela psicologia da religião.

Existe ainda um erro de raciocínio importante que devemos evitar: descobrir que uma crença proporciona conforto não demonstra que ela seja falsa. Da mesma forma, descobrir que determinada crença provoca desconforto não demonstra que seja verdadeira.

A função psicológica de uma crença não resolve automaticamente a questão sobre a verdade dessa crença.

É exatamente aqui que psicologia, filosofia e religião começam a fazer perguntas diferentes. A psicologia pode investigar o que acontece conosco quando acreditamos, rezamos ou sentimos que Deus nos protege. Ela não possui, apenas por essas observações, uma resposta científica definitiva para a pergunta “Deus existe?”.

E quem não acredita em Deus?

Pessoas ateias e agnósticas também enfrentam medo, perda, morte, incerteza e falta de controle. Naturalmente, elas podem buscar segurança e significado em outras fontes: relacionamentos, família, comunidade, filosofia, valores pessoais, conhecimento científico, terapia ou na própria aceitação de que determinadas coisas simplesmente não podem ser controladas.

Isso abre uma questão ainda mais interessante para a psicologia: até que ponto as necessidades associadas à religião são especificamente religiosas e até que ponto representam necessidades humanas mais universais?

Talvez, portanto, a pergunta mais profunda não seja apenas por que algumas pessoas procuram Deus quando estão com medo. Podemos perguntar também o que nós, seres humanos, procuramos quando percebemos que somos vulneráveis e não conseguimos controlar o que acontecerá depois. Para milhões de pessoas, uma das respostas possíveis continua sendo Deus.

Perguntas frequentes

Por que buscamos Deus nos momentos difíceis?

Não existe uma explicação única. Para algumas pessoas religiosas, Deus pode representar segurança, proteção, esperança, significado e companhia diante de situações que provocam medo ou sofrimento.

Deus pode funcionar psicologicamente como uma figura de proteção?

Para muitos indivíduos religiosos, sim. Estudos sobre religião e teoria do apego indicam que Deus pode ser percebido como um porto seguro e uma base segura. Isso descreve uma experiência psicológica e não constitui uma afirmação científica sobre a existência ou inexistência de Deus.

A religião ajuda a diminuir o medo?

Pode ajudar algumas pessoas, mas não existe uma resposta universal. Encontrar apoio e esperança na fé pode favorecer a maneira de enfrentar situações difíceis, enquanto conflitos religiosos, culpa ou sensação de abandono por Deus podem estar associados a maior sofrimento.

Buscar Deus por medo significa ter uma fé fraca?

A psicologia não sustenta essa conclusão. Buscar segurança e proximidade diante de ameaças é um comportamento humano comum. Para uma pessoa religiosa, essa busca pode incluir Deus e a oração.

A psicologia pode provar que Deus não existe?

Não. A psicologia pode investigar crenças, experiências religiosas e seus efeitos sobre pensamentos, emoções e comportamentos. Identificar mecanismos psicológicos relacionados à fé não demonstra, por si só, se Deus existe ou não.

Por que procuramos Deus quando estamos com medo? infográfico

Referências científicas

  • Cherniak, A. D.; Mikulincer, M.; Shaver, P. R.; Granqvist, P. Attachment theory and religion. Current Opinion in Psychology, 2021. Revisão sobre teoria do apego e relação percebida com Deus. Consultar no PubMed.
  • Granqvist, P.; Mikulincer, M.; Shaver, P. R. Religion as Attachment: Normative Processes and Individual Differences. Personality and Social Psychology Review, 2010. Consultar publicação.
  • Bradshaw, M. et al. Faith in the wake of disaster: A longitudinal qualitative study of religious attachment following a catastrophic flood. Psychological Trauma, 2019. Consultar no PubMed.
  • Ano, G. G.; Vasconcelles, E. B. Religious coping and psychological adjustment to stress: A meta-analysis. Journal of Clinical Psychology, 2005. Meta-análise de 49 estudos sobre diferentes maneiras de utilizar a religião para enfrentar situações estressantes. Consultar no PubMed.

Para quem também se interessa por ceticismo

A psicologia da religião investiga por que acreditamos, duvidamos e buscamos significado, sem exigir que o leitor adote uma posição religiosa. Se você também se interessa por ateísmo, agnosticismo, ceticismo e pensamento crítico, conheça o grupo de Ateísmo e Agnosticismo, um espaço dedicado a essas discussões.

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