Ateus são menos felizes? Estudo brasileiro revela uma diferença surpreendente

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A ausência de crença em Deus torna alguém menos feliz? Uma pesquisa brasileira publicada em junho de 2026 encontrou uma diferença intrigante: ateus e agnósticos relataram, em média, menos felicidade e sentido de vida do que participantes de alguns grupos religiosos. Entretanto, não apresentaram níveis maiores de ansiedade ou sintomas depressivos. O resultado, baseado em respostas de 1.541 brasileiros, levanta uma questão que vai além da fé: será que parte do bem-estar associado à religião está relacionada ao pertencimento, às relações sociais e ao significado que as pessoas encontram na própria existência?

A descoberta não demonstra que acreditar em Deus seja necessário para ser feliz. Tampouco significa que abandonar uma religião prejudique a saúde mental. Na realidade, ela oferece uma oportunidade para investigar como diferentes visões de mundo se relacionam com experiências psicológicas importantes.

O que a pesquisa brasileira descobriu sobre ateus e religiosos?

O estudo foi conduzido por Daniel Foschetti Gontijo, Felipe Carvalho Novaes, Pedro Henrique de Faria Sampaio e Natacha Ágata de Queiroz Andrade Costa Gontijo. Os resultados foram publicados na revista científica Interações, vinculada à PUC Minas.

Os pesquisadores analisaram questionários respondidos por 1.541 brasileiros, comparando pessoas identificadas como ateias, agnósticas, espiritualistas e integrantes de diferentes tradições religiosas.

Foram examinadas quatro dimensões: felicidade subjetiva, sentido de vida, sintomas de ansiedade e sintomas depressivos.

Segundo o estudo científico original, ateus e agnósticos apresentaram níveis médios inferiores de felicidade e sentido de vida quando comparados a católicos, evangélicos e espíritas.

Entretanto, essa diferença não apareceu da mesma maneira nos indicadores de sofrimento psicológico. Os participantes ateus e agnósticos não apresentaram níveis significativamente maiores de ansiedade ou depressão.

Os pesquisadores também identificaram diferenças entre grupos religiosos. Evangélicos relataram, em algumas comparações, mais sentido de vida e menos sintomas depressivos do que integrantes de religiões minoritárias. Já o grupo classificado como espiritualista apresentou maior vulnerabilidade ao sofrimento mental na amostra.

Esses resultados revelam que a relação entre religiosidade e bem-estar é mais complexa do que uma oposição entre pessoas com fé e sem fé.

Ser menos feliz não significa necessariamente ter pior saúde mental

Uma distinção fundamental para interpretar os resultados está na diferença entre felicidade, sentido de vida e sofrimento psicológico.

Uma pessoa pode atravessar uma fase de pouca satisfação com a vida sem apresentar sintomas clínicos de depressão. Da mesma forma, alguém pode experimentar ansiedade e, ainda assim, considerar sua existência significativa.

A felicidade subjetiva envolve avaliações e sentimentos relacionados ao próprio bem-estar. O sentido de vida diz respeito à percepção de que a existência possui significado, direção ou coerência.

Ansiedade e sintomas depressivos, por sua vez, representam dimensões diferentes da experiência psicológica.

Portanto, encontrar médias menores de felicidade entre ateus e agnósticos não autoriza afirmar que essas pessoas sejam psicologicamente menos saudáveis.

Essa diferença ajuda a compreender por que os pesquisadores encontraram resultados distintos entre os indicadores avaliados.

Por que a religião pode oferecer mais do que uma crença em Deus?

Uma possível explicação está no fato de que a religião frequentemente reúne diferentes fontes de apoio e significado.

Para muitas pessoas, participar de uma comunidade religiosa envolve amizades, encontros regulares, atividades coletivas, reconhecimento social e oportunidades de ajudar outras pessoas.

Presente

A religião também pode oferecer narrativas compartilhadas sobre a existência, o sofrimento, a morte e o futuro.

Esses elementos não dependem exclusivamente da aceitação intelectual de uma crença. Eles fazem parte de experiências sociais e emocionais que podem contribuir para o bem-estar.

Imagine alguém que frequenta semanalmente uma comunidade na qual conhece pessoas, participa de atividades e sente que sua presença é valorizada. Parte da satisfação experimentada nesse ambiente pode estar relacionada aos vínculos construídos.

Isso não significa que as crenças religiosas sejam irrelevantes. Significa que religião e pertencimento costumam aparecer interligados, dificultando identificar exatamente a contribuição de cada componente.

O estudo brasileiro não isolou experimentalmente esses mecanismos. Assim, o pertencimento deve ser tratado como uma explicação plausível, não como causa demonstrada dos resultados.

O desafio do pertencimento para quem não tem religião

O pertencimento social é uma necessidade humana amplamente estudada pela psicologia. Sentir-se aceito, reconhecido e conectado a outras pessoas pode influenciar a maneira como avaliamos nossa vida.

Em ambientes nos quais a religião ocupa um lugar importante na convivência, indivíduos não religiosos podem encontrar dificuldades específicas para construir ou preservar determinados vínculos.

Uma pessoa que deixa uma comunidade religiosa, por exemplo, pode perder simultaneamente uma crença, uma rotina social e parte de sua rede de amizades.

Entretanto, essa experiência não é universal. Algumas pessoas mantêm os relacionamentos anteriores, enquanto outras encontram maior liberdade e satisfação depois de abandonar convicções que já não consideravam verdadeiras.

Também existem indivíduos que nunca tiveram religião e desenvolveram desde cedo suas referências afetivas e sociais fora de instituições religiosas.

Por isso, não é adequado tratar ateus e agnósticos como um grupo homogêneo. A história pessoal, o ambiente cultural e a maneira como cada indivíduo vivencia sua identidade podem modificar profundamente a experiência de bem-estar.

O que outro estudo descobriu sobre a felicidade de pessoas não religiosas?

Uma pesquisa publicada em junho de 2025 na revista Sociology of Health & Illness oferece uma perspectiva complementar.

Conduzido por Jacqui Frost, Penny Edgell e Mahala Miller, o estudo analisou dados de 1.326 participantes de uma pesquisa norte-americana realizada em 2020.

As pesquisadoras investigaram diferentes dimensões da experiência não religiosa, incluindo identidade, tempo de afastamento da religião, participação em organizações seculares e sentimentos associados à própria descrença.

Um resultado especialmente relevante foi que a maneira como os participantes vivenciavam sua identidade não religiosa estava fortemente associada ao bem-estar.

Pessoas que experimentavam conforto com sua condição não religiosa apresentavam padrões diferentes daquelas que a vivenciavam com ansiedade.

A participação em organizações não religiosas também apareceu relacionada a aspectos dessa experiência.

O estudo publicado em 2025 sugere, portanto, que compreender o bem-estar de ateus e agnósticos exige investigar mais do que a ausência de crença em Deus.

Importa considerar como essas pessoas constroem identidade, relacionamentos e formas de participação social.

É possível construir uma vida com sentido sem acreditar em Deus?

Do ponto de vista psicológico, o significado da vida não precisa estar restrito a uma explicação religiosa.

Relacionamentos afetivos, projetos pessoais, aprendizagem, criatividade, trabalho, cuidado com outras pessoas e participação comunitária podem constituir fontes importantes de sentido.

Alguém pode encontrar significado na criação dos filhos, na dedicação à ciência, na construção de amizades ou em atividades que considera valiosas.

Essas experiências não exigem necessariamente uma finalidade sobrenatural para serem percebidas como importantes.

Isso também não significa que todas as pessoas não religiosas encontrem propósito com facilidade. A construção de significado pode envolver dúvidas, mudanças de valores e períodos de reorganização pessoal.

Uma diferença possível está na maneira como esse significado é compreendido: algumas pessoas o relacionam a uma finalidade transcendente; outras o constroem a partir da experiência humana e dos compromissos que escolhem assumir.

Essas perspectivas não determinam, isoladamente, a qualidade dos relacionamentos ou a satisfação que alguém experimentará.

O que os estudos ainda não conseguem explicar?

A pesquisa brasileira utilizou questionários on-line e recrutamento direcionado a determinados subgrupos. Portanto, seus resultados não devem ser interpretados como estimativas representativas de todos os brasileiros.

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Além disso, trata-se de uma investigação observacional, baseada em relatos dos próprios participantes. Esse tipo de estudo identifica associações, mas não permite estabelecer relações de causa e efeito.

Diferenças de idade, ambiente social, condições econômicas, experiências familiares e trajetórias pessoais podem influenciar as comparações.

Também não é possível concluir que alguém se tornará mais feliz ao adotar uma religião ou menos feliz ao abandoná-la.

O estudo norte-americano apresenta limitações semelhantes e foi realizado em outro contexto cultural. Seus resultados ajudam a ampliar a discussão, mas não explicam automaticamente as diferenças observadas no Brasil.

O conjunto das evidências permite, contudo, uma reflexão importante: a felicidade humana não parece depender de uma única dimensão da existência.

Crenças, vínculos, identidade e sentido de vida podem interagir de maneiras diferentes conforme a trajetória individual.

Talvez a pergunta mais produtiva não seja simplesmente se ateus ou religiosos são mais felizes, mas quais condições permitem que pessoas com diferentes visões de mundo construam relações significativas e uma vida que considerem satisfatória.

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Referências Científicas

Gontijo, D. F.; Novaes, F. C.; Sampaio, P. H. F.; Gontijo, N. A. Q. A. C. (2026). Diferenças de saúde mental entre ateus, agnósticos, espiritualistas e religiosos brasileiros. Interações, 21(1), e211t01. Consultar pesquisa científica original.

Frost, J.; Edgell, P.; Miller, M. (2025). Varieties of Nonreligious Experience: Expanding Understandings of Nonreligious Wellbeing. Sociology of Health & Illness, 47(5), e70060. Consultar pesquisa científica original.

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