Imagine estar entre cinco amigos discutindo política. Todos defendem uma posição da qual você discorda. Quando chega sua vez de falar, você mantém sua opinião ou acaba concordando com o grupo? Um experimento publicado em 2023 na revista científica PLOS ONE encontrou evidências de que a pressão da maioria pode influenciar até mesmo nossas respostas sobre questões políticas. A descoberta revela um aspecto intrigante da conformidade social: aquilo que expressamos publicamente nem sempre corresponde apenas às nossas convicções individuais.
A pesquisa foi conduzida por Axel Franzen e Sebastian Mader, da Universidade de Berna, na Suíça. Seus resultados ajudam a compreender como opiniões aparentemente pessoais podem ser influenciadas pelo comportamento de outras pessoas, mesmo quando ninguém exige explicitamente concordância.
O experimento que colocou a independência de pensamento à prova
Para investigar a influência social, os pesquisadores retomaram um dos experimentos mais conhecidos da psicologia: os estudos de Solomon Asch, realizados na década de 1950.
Nos experimentos clássicos, participantes precisavam identificar qual de três linhas tinha o mesmo comprimento de uma linha apresentada como referência. A tarefa era simples, mas havia um detalhe desconhecido: as outras pessoas presentes eram integrantes da equipe experimental, instruídas a fornecer respostas incorretas em determinadas rodadas.
O resultado surpreendeu. Mesmo diante de diferenças visuais evidentes, alguns participantes acompanhavam a resposta errada da maioria.
Em 2023, Franzen e Mader reproduziram aspectos desse procedimento com 210 participantes. Cada voluntário respondia diante de cinco pessoas que pareciam participantes comuns, mas que, na realidade, seguiam orientações dos pesquisadores.
Na comparação de linhas, a taxa média de respostas incorretas alcançou 33% nas rodadas críticas da condição tradicional. Quando os pesquisadores introduziram recompensas financeiras por respostas corretas, a taxa caiu para 25%.
A pressão do grupo, portanto, continuou produzindo efeitos mesmo quando havia um incentivo para acertar. A pesquisa, porém, não se limitou a julgamentos visuais: também investigou o comportamento diante de questões políticas.
Quando a opinião da maioria influencia nossas respostas políticas
Os pesquisadores apresentaram cinco perguntas sobre assuntos políticos suíços, incluindo o poder do governo, dos sindicatos e das associações empresariais, além das liberdades dos cidadãos e das empresas.
Antes que o verdadeiro participante respondesse, os integrantes da equipe manifestavam uma posição unânime. Dependendo da condição experimental, todos concordavam ou discordavam da proposta.
Os resultados mostraram diferenças expressivas.
Quando o grupo defendia que os sindicatos deveriam ter mais poder, 72% dos participantes também concordavam. Entretanto, quando a maioria se posicionava contra, apenas 29% respondiam favoravelmente à mesma proposta.
Uma diferença de 43 pontos percentuais, provocada pela mudança na posição expressa pelo grupo.
Em outra questão, sobre ampliar as liberdades dos cidadãos suíços, a concordância chegou a 81% quando a maioria apoiava a proposta, mas caiu para 33% quando o grupo a rejeitava.
Considerando as cinco questões políticas, os pesquisadores encontraram uma diferença média de 38 pontos percentuais entre as condições experimentais.
O resultado, disponível no estudo original publicado na PLOS ONE, indica que a posição de outras pessoas pode influenciar significativamente as respostas políticas expressas em público.
Mas existe uma distinção essencial: o experimento não demonstra que todos os participantes influenciados abandonaram suas convicções particulares. O que os pesquisadores observaram diretamente foi uma mudança nas proporções de respostas dadas diante do grupo.
Por que concordamos com o grupo mesmo quando temos dúvidas?
A psicologia social distingue dois mecanismos importantes para compreender a conformidade.
O primeiro é a influência normativa. Ela ocorre quando uma pessoa acompanha o comportamento de outras para preservar aceitação, evitar conflitos ou não se destacar negativamente.
Imagine alguém que discorda de uma afirmação política durante uma reunião familiar. Ao perceber que todos estão de acordo, essa pessoa pode preferir permanecer em silêncio ou manifestar concordância superficial.
Isso não exige uma ameaça explícita. A possibilidade de desaprovação já pode influenciar o comportamento.
O segundo mecanismo é a influência informacional. Nesse caso, o indivíduo considera que a maioria talvez possua informações ou conhecimentos que ele desconhece.
Se várias pessoas defendem uma posição com segurança, alguém pode interpretar o consenso como indício de que aquela opinião está correta.
Essa estratégia não é necessariamente irracional. Consultar outras pessoas pode ser útil diante de situações incertas. O problema aparece quando a quantidade de indivíduos que concordam passa a substituir a análise das evidências.
Os dois mecanismos podem atuar simultaneamente. Uma pessoa pode desejar manter boas relações e, ao mesmo tempo, acreditar que os outros estejam mais bem informados.
Concordar publicamente significa realmente mudar de opinião?
Essa talvez seja a questão mais importante levantada pela pesquisa.
Existe uma diferença entre conformidade pública e aceitação privada. Na primeira, alguém expressa concordância sem necessariamente modificar sua crença. Na segunda, a influência recebida produz uma mudança efetiva naquilo que considera verdadeiro ou adequado.
O experimento suíço mediu principalmente respostas públicas. Por isso, seus resultados não permitem determinar com precisão quantos participantes realmente mudaram de opinião.
Uma pesquisa complementar, publicada em 2018 por Daniel Mallinson e Peter Hatemi, investigou a influência de informações e discussões sociais sobre posições políticas.
Os autores observaram que a apresentação social das informações podia produzir mudanças de opinião, indicando que a influência de outras pessoas não se limita necessariamente à aparência de concordância.
Entretanto, os mecanismos e as condições investigadas eram diferentes. Os resultados não autorizam concluir que toda concordância política diante de uma maioria represente uma transformação profunda das convicções.
O que isso ajuda a compreender sobre a política atual?
As descobertas oferecem caminhos para refletir sobre discussões políticas em ambientes familiares, profissionais e digitais.
Em grupos de mensagens ou redes sociais, por exemplo, uma opinião acompanhada de numerosas manifestações de aprovação pode transmitir a impressão de consenso.
Essa percepção pode influenciar quem participa da conversa, especialmente quando discordar envolve possíveis custos sociais.
Entretanto, seria incorreto afirmar que o experimento suíço comprovou diretamente o funcionamento da conformidade nas redes sociais brasileiras. As condições de um laboratório diferem das interações digitais e das disputas eleitorais reais.
Também não há fundamento para atribuir esse mecanismo exclusivamente a pessoas de direita, esquerda, conservadoras ou progressistas. A conformidade social é um fenômeno psicológico mais amplo, embora sua intensidade varie conforme o contexto.
Outro resultado interessante da pesquisa foi a ausência de associações convincentes entre a suscetibilidade à pressão do grupo e a maioria das características individuais examinadas, como inteligência e autoestima. A abertura à experiência apresentou uma associação, mas os resultados não sustentam um perfil simples de pessoa facilmente influenciável.
Isso reforça a necessidade de evitar explicações que atribuam a conformidade apenas à ingenuidade ou à falta de capacidade intelectual.
Como reconhecer quando uma opinião está sendo influenciada pelo grupo
Reconhecer a influência social não significa rejeitar automaticamente a opinião da maioria. Afinal, grupos também podem compartilhar informações corretas e chegar a conclusões bem fundamentadas.
A questão central é distinguir concordância baseada em evidências de concordância motivada principalmente pela pressão social.
Uma possibilidade é perguntar a si mesmo se manteria determinada posição caso as pessoas mais próximas defendessem exatamente o contrário.
Outra é examinar quais argumentos sustentam sua opinião independentemente de quem os apresenta. Uma afirmação não se torna verdadeira apenas porque foi pronunciada por alguém admirado ou repetida por muitas pessoas.
Também vale observar como reagimos ao encontrar informações que contradizem nossas convicções. Descartamos imediatamente essas informações ou conseguimos avaliá-las pelos mesmos critérios utilizados para julgar argumentos favoráveis?
Essas práticas não garantem imunidade à influência social, mas podem ajudar a tornar mais consciente o processo de formação de opiniões.
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Explorar livros e análises →A independência intelectual não exige discordar de todos. Exige conservar a possibilidade de concordar ou discordar com base em razões que possam ser examinadas.
O que a ciência ainda precisa esclarecer
O experimento de 2023 apresenta limitações importantes. Os participantes foram recrutados em um contexto universitário suíço, e as respostas ocorreram em condições controladas, diante de um grupo aparentemente unânime.
Não é possível generalizar diretamente os percentuais encontrados para toda a população nem prever como indivíduos específicos se comportariam em eleições reais.
As perguntas também envolviam temas políticos particulares da Suíça. Outras questões, especialmente aquelas relacionadas a identidades profundamente estabelecidas, podem produzir resultados diferentes.
Ainda assim, a investigação reforça uma descoberta recorrente da psicologia social: nossas respostas não dependem exclusivamente daquilo que pensamos individualmente. O contexto social também importa.
Talvez a reflexão mais relevante seja reconhecer que podemos defender determinadas posições com convicção e, mesmo assim, continuar sujeitos à influência das pessoas ao redor.
O pensamento independente não consiste em estar permanentemente contra a maioria, mas em preservar a capacidade de examinar suas razões — inclusive quando concordar parece mais confortável do que questionar.
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Referências Científicas
Franzen, A.; Mader, S. (2023). The power of social influence: A replication and extension of the Asch experiment. PLOS ONE, 18(11), e0294325. Acessar pesquisa original.
Mallinson, D. J.; Hatemi, P. K. (2018). The effects of information and social conformity on opinion change. PLOS ONE, 13(5), e0196600. Acessar pesquisa original. O artigo recebeu uma correção editorial em 2020, disponível na página da publicação.
Asch, S. E. (1955). Opinions and Social Pressure. Scientific American, 193(5), 31–35. Consultar publicação original.


