Você ama essa pessoa – ou a pessoa que inventou na sua cabeça?

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No início de um relacionamento, pequenos detalhes podem adquirir um significado enorme. Uma mensagem carinhosa parece revelar sensibilidade. Um gesto de atenção se transforma em prova de compatibilidade. Um projeto para o futuro pode parecer evidência de que encontramos exatamente quem procurávamos.

Então surge uma pergunta desconfortável: estamos conhecendo aquela pessoa ou preenchendo aquilo que ainda não conhecemos com nossos próprios desejos?

Isso é parte do que torna a idealização amorosa tão interessante. Quando nos envolvemos romanticamente, nossa percepção do parceiro não funciona necessariamente como uma fotografia neutra. Expectativas, desejos e aquilo que consideramos um parceiro ideal podem participar da imagem que construímos.

Mas existe uma surpresa: enxergar quem amamos de maneira especialmente positiva não é necessariamente ruim. Algumas pesquisas sobre relacionamentos encontraram associações entre determinadas formas de idealização e maior satisfação amorosa.

O que é idealização amorosa?

Idealizar alguém não significa necessariamente inventar uma pessoa completamente fictícia.

Em pesquisas clássicas sobre relacionamentos, Sandra Murray, John Holmes e Dale Griffin observaram que participantes envolvidos romanticamente tendiam a perceber seus parceiros de maneira mais positiva do que os próprios parceiros se descreviam.

Além disso, a imagem construída sobre a pessoa amada parecia refletir, em alguma medida, os ideais e a própria percepção de quem estava avaliando.

Isso ajuda a entender por que duas pessoas podem conhecer o mesmo indivíduo e descrevê-lo de maneiras bastante diferentes.

Imagine alguém que valorize profundamente espontaneidade. Ao conhecer uma pessoa que toma algumas decisões inesperadas, pode interpretar esse comportamento como sinal de uma personalidade aventureira. Outra pessoa poderia enxergar exatamente o mesmo comportamento como impulsividade.

O comportamento existe. Mas sua interpretação não acontece no vazio.

É por isso que a pergunta “essa pessoa é realmente assim?” pode ser mais difícil de responder do que parece.

Por que enxergamos quem amamos de maneira diferente?

Todos carregamos alguma ideia, mais ou menos consciente, sobre aquilo que desejamos encontrar em um parceiro.

Características como carinho, confiança, atração, ambição, sensibilidade ou capacidade de ouvir podem receber pesos diferentes para cada pessoa.

Pesquisadores estudam essas expectativas por meio de conceitos relacionados aos padrões ideais de parceiro: características que consideramos desejáveis em um relacionamento.

Estudos sobre esses padrões encontraram relações entre a correspondência percebida entre parceiro e determinados ideais e a satisfação amorosa. Entretanto, essas relações são complexas e podem variar conforme a maneira utilizada para medir tanto os ideais quanto a percepção do parceiro.

Isso significa que, quando nos apaixonamos, não encontramos apenas uma pessoa.

Encontramos também nossas expectativas sobre aquilo que gostaríamos que uma pessoa fosse.

Presente

Às vezes, realidade e expectativa combinam bastante. Em outras situações, podemos interpretar características ambíguas de maneira especialmente favorável.

Idealizar alguém é necessariamente ruim?

A resposta intuitiva poderia ser sim. Afinal, se enxergar alguém de maneira distorcida parece perigoso, então quanto mais objetiva for nossa percepção, melhor deveria ser o relacionamento.

Mas algumas pesquisas clássicas encontraram resultados mais interessantes.

Nos estudos de Murray e colaboradores, determinadas percepções positivamente idealizadas estiveram associadas à satisfação nos relacionamentos. Em pesquisas posteriores, os autores também encontraram relações entre essas percepções positivas e aspectos como confiança, persistência do relacionamento e avaliações mais favoráveis da relação.

Isso não significa que devemos ignorar a realidade. Tampouco demonstra que quanto mais fantasiarmos sobre alguém, melhor será o relacionamento.

O resultado sugere algo mais sutil: enxergar a pessoa amada através de uma lente favorável pode coexistir com um relacionamento satisfatório.

Existe uma diferença importante entre valorizar especialmente as qualidades de alguém e construir uma personagem que os comportamentos reais daquela pessoa já não sustentam.

Quando a imagem começa a ocupar o lugar da pessoa real?

Aqui está uma das distinções mais importantes.

Existe uma enorme diferença entre enxergar generosamente uma pessoa imperfeita e precisar continuamente reinterpretar a realidade para preservar uma imagem que corresponde às nossas expectativas.

Imagine alguém pensando:

“Ele ainda não demonstra o carinho de que preciso, mas sei que um dia será diferente.”

Ou:

“Ela não quer o mesmo futuro que eu, mas quando perceber o quanto nos amamos mudará de ideia.”

Nesses exemplos, o relacionamento pode começar a depender menos da pessoa que existe hoje e mais de uma versão futura imaginada.

Isso não significa que acreditar no crescimento de alguém seja necessariamente um problema. Pessoas mudam, amadurecem e podem desenvolver novas maneiras de se relacionar.

A questão é outra: o relacionamento atual funciona com a pessoa que existe agora ou depende principalmente da esperança de que ela se transforme?

Não existe uma porcentagem científica que determine exatamente quando uma percepção positiva se transforma em idealização prejudicial.

Mas existe uma pergunta especialmente útil:

o que acontece quando a pessoa real contradiz a imagem que você criou?

Você ama a pessoa ou sua idealização?

Não existe um teste simples capaz de responder essa pergunta. E listas que prometem diagnosticar um relacionamento em poucos itens podem simplificar excessivamente um fenômeno complexo.

Algumas perguntas, porém, podem ajudar na reflexão.

Você consegue reconhecer características da pessoa que não combinam com aquilo que gostaria? Amar alguém não exige considerar todas as suas características maravilhosas.

Seu relacionamento depende de uma transformação futura? Há diferença entre acreditar no crescimento de alguém e precisar que essa pessoa se transforme em outra para que a relação funcione.

Você está respondendo ao comportamento atual ou principalmente ao potencial? “Ele será”, “ela vai perceber” e “um dia mudará” são afirmações sobre possibilidades, não sobre o presente.

Quando aparecem informações que contradizem suas expectativas, você consegue reconsiderar sua percepção?

Talvez essa seja uma das questões mais importantes.

Uma imagem mental que nunca pode ser revisada deixa pouco espaço para que a outra pessoa revele quem realmente é.

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Essas perguntas não dizem se alguém deve permanecer ou sair de um relacionamento. Elas servem para distinguir duas experiências que podem parecer semelhantes quando estamos emocionalmente envolvidos:

enxergar o melhor de alguém e precisar acreditar em algo que os comportamentos dessa pessoa não sustentam.

Amar é enxergar sem nenhuma ilusão?

Talvez não. Uma das descobertas mais interessantes dessa área é justamente que relacionamentos satisfatórios não parecem exigir que observemos o parceiro como cientistas completamente neutros examinando um objeto.

Podemos perceber suas qualidades de maneira especialmente favorável, interpretar algumas ambiguidades generosamente e enxergar possibilidades que outras pessoas não percebem.

Alguns estudos associaram essas percepções positivas à satisfação e à estabilidade dos relacionamentos. Isso, porém, não permite concluir que toda idealização seja benéfica ou que ignorar problemas melhore uma relação.

Talvez, portanto, a pergunta do título esteja ligeiramente incompleta.

Não precisamos necessariamente escolher entre amar a pessoa real ou amar uma imagem mental. Toda percepção humana envolve algum grau de interpretação.

A questão mais interessante é outra:

existe espaço no seu amor para a pessoa real contrariar aquilo que você imaginou sobre ela?

Enxergar alguém com carinho pode aproximar duas pessoas. Mas, quando fatos precisam ser continuamente ignorados para preservar uma história, a idealização pode começar a ocupar espaço demais.

Talvez a diferença esteja justamente aí: amar alguém não exige enxergá-lo sem nenhuma lente — mas exige permitir que a realidade também tenha voz.

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Perguntas frequentes

O que é idealização amorosa?

Idealização amorosa é uma forma de perceber o parceiro influenciada por expectativas, ideais e avaliações especialmente positivas. Isso não significa necessariamente inventar características inexistentes, pois a percepção das pessoas que amamos também envolve interpretação.

Idealizar o parceiro faz mal ao relacionamento?

Não necessariamente. Pesquisas encontraram associações entre determinadas percepções positivamente idealizadas e satisfação nos relacionamentos. Isso não significa que ignorar problemas, incompatibilidades ou comportamentos importantes seja benéfico.

Como saber se estou idealizando alguém?

Uma reflexão útil é observar se sua percepção consegue mudar quando os comportamentos da pessoa contradizem suas expectativas. Também vale distinguir aquilo que ela demonstra atualmente daquilo que você espera que ela se torne no futuro.

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Referências científicas

  • Murray, S. L.; Holmes, J. G.; Griffin, D. W. The Benefits of Positive Illusions: Idealization and the Construction of Satisfaction in Close Relationships. Journal of Personality and Social Psychology, 1996, 70(1), 79–98. Consultar referência.
  • Murray, S. L.; Holmes, J. G.; Griffin, D. W. The Self-Fulfilling Nature of Positive Illusions in Romantic Relationships: Love Is Not Blind, but Prescient. Journal of Personality and Social Psychology, 1996, 71(6), 1155–1180. Consultar no PubMed.
  • Murray, S. L.; Holmes, J. G. A Leap of Faith? Positive Illusions in Romantic Relationships. Personality and Social Psychology Bulletin, 1997, 23(6). Consultar publicação.
  • Buyukcan-Tetik, A.; Campbell, L.; Finkenauer, C.; Karremans, J. C.; Kappen, G. Ideal Standards, Acceptance, and Relationship Satisfaction: Latitudes of Differential Effects. Frontiers in Psychology, 2017, 8:1691. Consultar estudo.
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