É Possível Ter Propósito na Vida Sem Religião? O Que Dizem a Psicologia e a Filosofia

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Se não existe um propósito estabelecido por Deus, isso significa que a vida não tem propósito?

Essa pergunta acompanha parte da filosofia há séculos e se tornou particularmente importante em sociedades nas quais um número crescente de pessoas não se identifica com uma religião.

Para quem acredita em Deus, a religião pode oferecer respostas profundas: existe uma razão para estarmos aqui, determinados valores transcendem nossa existência individual e a vida faz parte de algo maior.

Mas o que acontece quando alguém deixa de acreditar nessas respostas? Uma vida sem religião precisa necessariamente se tornar vazia?

A psicologia e a filosofia oferecem uma resposta mais complexa: religião pode ser uma importante fonte de propósito e significado, mas não é a única.

Relações, projetos, valores, conhecimento, criação, trabalho, contribuição para outras pessoas e objetivos escolhidos também podem participar da construção de uma vida percebida como significativa.

Isso, porém, nos conduz a uma questão ainda mais interessante: se o propósito não vier pronto, de onde ele vem?

Antes de tudo: propósito e sentido da vida não são exatamente a mesma coisa

Na conversa cotidiana, usamos “propósito” e “sentido” quase como sinônimos. Na psicologia, porém, pesquisadores têm procurado fazer distinções mais precisas.

Uma influente proposta de Frank Martela e Michael Steger descreve três dimensões relacionadas ao significado da vida: coerência, propósito e significância.

Coerência diz respeito à sensação de que conseguimos compreender nossa experiência e que a vida possui alguma inteligibilidade. Propósito envolve objetivos, direção e algo em direção ao qual nos movimentamos. Significância está relacionada à percepção de que nossa existência possui valor e merece ser vivida.

Isso ajuda a entender por que alguém pode possuir objetivos claros e ainda sentir um vazio existencial. Ter uma promoção como meta, por exemplo, oferece direção, mas não garante que a pessoa considere sua existência significativa.

Da mesma forma, alguém pode considerar sua família extremamente importante e ainda atravessar um período em que não sabe para onde está indo.

Ter metas não é necessariamente o mesmo que sentir que a vida faz sentido.

A religião pode oferecer propósito?

Sim. E seria um erro minimizar essa função.

Religiões podem oferecer narrativas sobre a origem e o destino da existência, valores morais, práticas compartilhadas, comunidade, rituais, identidade e uma relação com algo considerado transcendente.

Isso reúne vários elementos que podem contribuir para o significado em uma única estrutura.

Algumas pesquisas encontram associação entre religiosidade e maior percepção de significado. Um estudo recente realizado nos Estados Unidos e no Reino Unido, por exemplo, encontrou níveis médios mais altos de significado relatado entre participantes religiosos do que entre pessoas espirituais sem religião e não crentes. Os pesquisadores também observaram que diferenças em conexão social ajudavam a explicar parte da diferença entre religiosos e pessoas espirituais sem religião.

Presente

Isso não demonstra que acreditar em Deus automaticamente torna uma pessoa mais realizada, nem que abandonar uma religião necessariamente produz uma vida vazia. São resultados médios de determinadas populações, e religião envolve muitos elementos simultaneamente.

Mas eles lembram algo importante: para milhões de pessoas, religião não é apenas uma crença abstrata sobre Deus. É também comunidade, identidade, ritual, valores e uma narrativa para interpretar a existência.

Quando alguém abandona uma religião, portanto, pode perder mais do que uma crença. Dependendo da pessoa, pode perder também parte dessa estrutura.

Mas é possível ter propósito na vida sem religião?

Sim. Tanto a pesquisa psicológica quanto importantes correntes da filosofia permitem compreender vidas significativas sem recorrer necessariamente a uma finalidade religiosa.

Isso não significa que todas as pessoas não religiosas automaticamente encontrem propósito. Assim como pertencer a uma religião não garante uma existência significativa, não acreditar em uma religião não fornece por si só uma filosofia de vida.

Ateísmo, por exemplo, responde essencialmente a uma questão sobre crença em divindades. Ele não determina o que alguém deve amar, quais projetos deve perseguir, como deve tratar outras pessoas ou o que deve considerar valioso.

Uma pessoa que abandona uma visão religiosa pode, portanto, precisar responder por conta própria a perguntas que antes possuíam respostas estruturadas.

O que merece meu tempo? Que tipo de pessoa quero ser? O que considero valioso? A quem quero dedicar cuidado? O que gostaria de construir, compreender ou deixar como contribuição?

Não possuir uma resposta sobrenatural para essas perguntas não significa que elas desapareçam.

Propósito cósmico e propósito humano são coisas diferentes

Uma distinção pode esclarecer grande parte do problema.

Perguntar “para que o universo me criou?” não é necessariamente a mesma coisa que perguntar “o que pode tornar minha vida significativa?”.

A primeira pergunta procura algo semelhante a uma finalidade cósmica ou externa. A segunda pode ser respondida examinando a própria vida humana.

A filosofia contemporânea sobre o sentido da vida contém justamente esse debate. Existem teorias sobrenaturalistas, nas quais Deus ou uma realidade espiritual desempenham papel fundamental, mas também existem diferentes formas de naturalismo segundo as quais uma vida pode possuir significado mesmo que não exista Deus ou uma alma imortal.

Dentro dessas perspectivas, relações de amor, conhecimento, criatividade, realizações, contribuição para outras pessoas e envolvimento com atividades valiosas podem conferir significado à existência.

Portanto, rejeitar a ideia de um propósito cósmico não obriga logicamente alguém a concluir que nada possui valor.

Se nós criamos o propósito, ele é menos verdadeiro?

Aqui aparece uma objeção poderosa. Se o propósito não foi estabelecido por algo superior a nós, ele não seria apenas uma invenção? Considere uma amizade.

O valor de uma amizade não precisa estar inscrito nas leis do universo para que perder um amigo seja doloroso ou para que décadas de confiança entre duas pessoas sejam importantes.

O mesmo pode ser dito sobre criar um filho, escrever um livro, descobrir algo sobre a natureza, cuidar de alguém doente, produzir música ou dedicar anos a resolver um problema.

Dizer que seres humanos participam da construção do significado não equivale necessariamente a dizer que qualquer coisa possui o mesmo valor ou que todas as escolhas são arbitrárias.

Esse é, inclusive, um dos grandes debates da filosofia contemporânea: até que ponto o significado depende daquilo que desejamos e até que ponto depende também de nos envolvermos com coisas que possuem valor para além das nossas preferências imediatas?

Não existe consenso. Mas a discussão mostra que há muito espaço filosófico entre duas posições extremas: “Deus determina todo propósito” e “sem Deus absolutamente nada importa”.

O que Aristóteles pode ensinar sobre uma vida boa?

Muito antes das pesquisas modernas sobre bem-estar, Aristóteles perguntava o que significa viver bem.

Uma ideia central de sua ética é a eudaimonia, termo frequentemente traduzido como felicidade, florescimento ou vida boa.

Mas eudaimonia não significa simplesmente sentir prazer constantemente.

Para Aristóteles, viver bem envolve atividade de acordo com a excelência ou virtude ao longo de uma vida. Amizade, caráter, escolhas, razão e participação na vida humana também ocupam posições importantes em sua ética.

Aristóteles viveu em um contexto profundamente diferente do nosso e não deve ser transformado artificialmente em um pensador secular contemporâneo. Sua obra inclui referências ao divino.

Ainda assim, sua filosofia oferece uma mudança de perspectiva útil: em vez de perguntar apenas “qual missão me foi entregue?”, podemos perguntar “o que significa viver bem como ser humano?”.

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Essa pergunta continua relevante para pessoas religiosas e não religiosas.

O existencialismo leva a pergunta ainda mais longe

Algumas vertentes do existencialismo colocaram a ausência de um significado previamente determinado no centro do problema humano.

Jean-Paul Sartre tornou famosa a formulação de que a existência precede a essência.

Em termos simplificados, isso significa que não nascemos com uma essência completamente pronta que determine quem devemos ser. Existimos, encontramos determinadas circunstâncias e participamos da construção de quem nos tornamos por meio de escolhas e ações.

Isso pode parecer libertador, mas também é desconfortável.

Se não existe um roteiro previamente estabelecido, nossas escolhas ganham peso. Não podemos simplesmente esperar que o universo decida por nós que tipo de pessoa devemos nos tornar.

Por isso, o existencialismo não precisa conduzir à conclusão de que “nada importa”. Em várias de suas formulações, ocorre quase o contrário: nossas escolhas importam justamente porque participamos da construção daquilo que valorizamos e de quem nos tornamos.

Sem religião, estamos condenados ao niilismo?

Não. Niilismo e ausência de religião não são sinônimos.

Uma análise utilizando dados do General Social Survey dos Estados Unidos comparou ateus, pessoas sem filiação religiosa e participantes religiosos. Os pesquisadores não encontraram diferenças que sustentassem a ideia simples de que não religiosos fossem necessariamente mais fatalistas ou niilistas.

Uma diferença interessante apareceu em outro ponto: ateus e pessoas sem religião mostraram maior tendência a considerar que o significado da vida é produzido pelo próprio indivíduo, em vez de recebido de uma fonte externa.

Outra pesquisa realizada em uma sociedade altamente secular, a Dinamarca, encontrou diferentes padrões de fontes de significado entre cristãos, agnósticos e ateus. Entre os participantes daquele estudo, generatividade — preocupação em contribuir para outras pessoas e gerações — apresentou forte associação com significado, e ateus demonstraram maior orientação para determinadas fontes relacionadas à autorrealização.

Esses estudos não provam que pessoas religiosas e não religiosas experimentem significado exatamente da mesma maneira.

Na realidade, algumas pesquisas encontram maior significado médio entre religiosos.

A conclusão mais responsável é outra: não religiosidade não equivale automaticamente a ausência de significado, mas as fontes e estruturas utilizadas para construí-lo podem ser diferentes.

De onde pode vir o propósito sem religião?

A pesquisa sobre significado mostra que as pessoas encontram valor em diversos domínios da vida.

Um dos mais consistentes são os relacionamentos.

Pesquisas com diferentes populações encontram família e vínculos interpessoais entre as fontes frequentemente mencionadas de significado. Em um amplo levantamento realizado em 17 economias avançadas, a família foi a fonte mais citada na maioria dos países pesquisados.

Isso é particularmente interessante porque relações significativas não dependem necessariamente de uma explicação metafísica sobre o universo.

Amar alguém, cuidar de um filho, construir uma amizade ou ajudar uma pessoa pode ter importância imediata para quem participa daquela relação.

Outras fontes relatadas incluem trabalho, aprendizagem, criatividade, projetos pessoais, contato com a natureza, comunidade, espiritualidade, atividades de lazer e contribuição social.

Para algumas pessoas, propósito pode significar educar os filhos. Para outras, investigar uma questão científica, criar arte, ensinar, cuidar, construir algo útil, defender uma causa ou desenvolver uma habilidade.

Provavelmente não existe uma fonte universal que funcione igualmente para todos.

Propósito não precisa significar uma “grande missão”

Talvez uma das ideias que mais dificultem encontrar propósito seja acreditar que ele precisa ser extraordinário.

Quando ouvimos “propósito de vida”, imaginamos fundar uma organização, transformar milhares de vidas, realizar uma descoberta ou deixar um legado histórico. Mas significado pode existir em escalas muito menores.

Uma pessoa pode encontrar direção cuidando bem da família, exercendo um trabalho que considera digno, aprendendo continuamente e sendo uma presença confiável para algumas pessoas.

Ela talvez nunca apareça em um livro de história. Isso não torna sua vida irrelevante.

Aliás, a própria psicologia do significado sugere que sentir que a vida importa não exige necessariamente notoriedade. Significância diz respeito à percepção de valor da própria existência, não à fama.

Uma vida não precisa ser importante para milhões de pessoas para ser profundamente importante para algumas.

E quando alguém perde a religião que dava sentido à sua vida?

Essa situação merece cuidado.

Presente

Para alguém cuja religião estruturava identidade, comunidade, moralidade, esperança sobre a morte e propósito, perder a fé pode significar muito mais do que mudar de opinião sobre a existência de Deus.

Pode ocorrer uma reorganização profunda da visão de mundo.

Nesse contexto, simplesmente dizer “crie seu próprio propósito” pode ser superficial.

Talvez seja necessário reconstruir gradualmente diferentes componentes que antes estavam reunidos em uma única estrutura: comunidade, valores, rituais, pertencimento, objetivos e uma narrativa capaz de conectar passado, presente e futuro.

Isso também ajuda a compreender por que vínculos sociais são tão relevantes. Às vezes, aquilo que parece exclusivamente uma crise filosófica também envolve perda de comunidade e identidade.

Encontrar significado depois de uma mudança desse tipo pode ser um processo, não uma descoberta instantânea.

Como encontrar propósito sem transformar isso em outra obrigação?

Talvez seja melhor abandonar por alguns minutos a pergunta gigantesca “qual é o propósito da minha vida?”.

Ela pode ser tão ampla que paralisa.

Podemos começar com questões menores: o que considero genuinamente valioso? Quais pessoas não quero negligenciar? Que capacidades gostaria de desenvolver? Existe algum problema para cuja solução posso contribuir? Que tipo de pessoa gostaria de ser nas relações que já fazem parte da minha vida?

As respostas podem mudar.

Isso não significa necessariamente que o propósito anterior era falso. Uma pessoa pode encontrar enorme significado em criar os filhos durante determinada fase e, décadas depois, direcionar mais energia para amizade, trabalho, conhecimento, voluntariado ou criação.

Propósito pode ser uma direção suficientemente importante para orientar uma etapa da vida, e não uma frase definitiva que precisamos descobrir uma única vez.

Então precisamos descobrir ou criar o sentido da vida?

Talvez essa seja uma falsa escolha.

Parte do significado parece ser construída por nossas interpretações, compromissos e decisões. Mas também encontramos um mundo que não inventamos: outras pessoas, necessidades, sofrimento, beleza, conhecimento, natureza, problemas e possibilidades.

Podemos escolher dedicar nossa vida a alguém, mas não inventamos completamente o valor daquela relação. Podemos escolher estudar astronomia, mas não criamos as estrelas que despertaram nossa curiosidade.

Talvez uma vida significativa aconteça justamente nessa interação: encontramos coisas que parecem dignas de cuidado e escolhemos nos comprometer com elas.

A filosofia continua discutindo até que ponto significado é subjetivo, objetivo ou uma combinação dos dois. Não existe uma resposta científica capaz de encerrar essa discussão, porque ela também envolve questões normativas sobre valor.

E talvez não precisemos resolvê-la completamente para viver.

É possível ter propósito na vida sem religião?

Sim, é possível.

A pesquisa psicológica mostra que seres humanos encontram significado em múltiplas fontes, incluindo relações, família, contribuição, projetos, trabalho, desenvolvimento pessoal, espiritualidade e religião. Estudos com ateus e pessoas não religiosas também encontram formas seculares de construção de significado.

Ao mesmo tempo, seria incorreto concluir que religião é irrelevante. Para muitas pessoas ela fornece uma estrutura extraordinariamente abrangente de significado, comunidade, valores e transcendência, e algumas pesquisas encontram maior percepção média de significado entre religiosos.

A filosofia acrescenta outra camada: não há consenso de que uma vida precise receber seu propósito de Deus para ser significativa. Há teorias naturalistas, existencialistas e outras perspectivas segundo as quais significado pode emergir de nossas relações com pessoas, projetos, valores, conhecimento e atividades que consideramos dignas.

A ausência de uma missão cósmica previamente estabelecida pode assustar algumas pessoas e libertar outras.

Mas talvez exista uma terceira possibilidade.

Não precisamos escolher entre acreditar que todo significado vem pronto do universo e concluir que nada importa.

Podemos reconhecer que nossa vida é limitada e, justamente por isso, decidir cuidadosamente a que pessoas, valores e projetos entregaremos parte desse tempo.

Talvez propósito não seja apenas descobrir por que estamos aqui. Talvez seja também decidir o que faremos enquanto estamos aqui.

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Referências

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