Ileísmo funciona? O que os estudos científicos realmente mostram

Nos últimos anos, o ileísmo — o hábito de falar consigo mesmo utilizando o próprio nome ou a terceira pessoa — deixou de ser visto apenas como uma curiosidade da linguagem para se tornar objeto de pesquisa em psicologia e neurociência. Diversos estudos investigaram se essa forma de diálogo interno pode ajudar as pessoas a lidar melhor com emoções intensas, reduzir a ruminação mental e tomar decisões mais equilibradas.

Mas será que essa técnica realmente funciona ou estamos diante de mais uma tendência sem respaldo científico?

A resposta é mais interessante do que parece. Embora o ileísmo não seja uma solução para todos os problemas emocionais, as evidências disponíveis indicam que ele pode favorecer o autodistanciamento psicológico, uma habilidade associada à regulação emocional e ao raciocínio mais objetivo em determinadas situações. Kross et al. (2014).

Nota: Embora este artigo utilize o termo ileísmo, a maior parte da literatura científica emprega a expressão em inglês third-person self-talk (“diálogo interno em terceira pessoa”). Os estudos citados investigam principalmente o uso deliberado do próprio nome ou da terceira pessoa como estratégia de autodistanciamento psicológico, e não o ileísmo como figura de linguagem em sentido amplo.

O que significa dizer que o ileísmo “funciona”?

Antes de analisar as pesquisas, é importante entender o que os cientistas avaliam quando estudam essa técnica.

Em ciência, dizer que uma estratégia “funciona” depende do resultado observado. No caso do ileísmo, os pesquisadores investigam principalmente se falar consigo mesmo na terceira pessoa pode melhorar processos psicológicos específicos, como:

Presente
  • regulação emocional;
  • redução da ruminação mental;
  • tomada de decisão;
  • autocontrole;
  • capacidade de lidar com situações estressantes.

Isso significa que os estudos não procuram demonstrar que o ileísmo “cura” ansiedade, depressão ou qualquer outro transtorno psicológico. Em vez disso, analisam se essa forma de diálogo interno modifica a maneira como o cérebro processa emoções e pensamentos em situações desafiadoras.

O que os principais estudos científicos encontraram?

O ileísmo pode facilitar a regulação emocional

Um dos estudos mais conhecidos sobre o tema foi conduzido pelo psicólogo Ethan Kross e colaboradores, da Universidade de Michigan.

Os pesquisadores verificaram que utilizar o próprio nome durante o diálogo interno ajudou os participantes a lidar com experiências emocionalmente negativas de maneira mais equilibrada, sem aumentar significativamente o esforço cognitivo necessário para controlar as emoções. Kross et al. (2014).

Em outras palavras, criar uma pequena distância psicológica entre a pessoa e seus próprios pensamentos parece favorecer uma resposta emocional mais estável.

Segundo os autores, essa mudança ocorre de forma rápida e relativamente automática, sem exigir técnicas complexas de meditação ou treinamento prolongado.

O autodistanciamento reduz a ruminação

Outro conjunto importante de pesquisas analisou um fenômeno chamado autodistanciamento psicológico.

Quando refletimos sobre um problema utilizando apenas a primeira pessoa (“Por que isso aconteceu comigo?”), é comum ficarmos presos em ciclos repetitivos de pensamentos negativos, conhecidos como ruminação.

Já quando observamos a situação como se estivéssemos aconselhando outra pessoa — utilizando nosso próprio nome ou a terceira pessoa — tendemos a analisar os acontecimentos de maneira mais objetiva e menos emocional. Ayduk & Kross (2010).

Essa mudança de perspectiva não elimina emoções difíceis, mas pode diminuir sua intensidade e facilitar a compreensão do problema, reduzindo a tendência de reviver mentalmente o mesmo evento repetidas vezes.

A técnica pode favorecer decisões mais equilibradas

Outro aspecto investigado é a influência do ileísmo sobre a tomada de decisão.

Em um trabalho sobre o chamado Paradoxo de Salomão, pesquisadores observaram que as pessoas costumam oferecer conselhos mais sensatos aos outros do que a si mesmas.

Ao utilizar o próprio nome durante a reflexão, esse efeito parece diminuir. O indivíduo passa a avaliar seus próprios dilemas de maneira semelhante à forma como avaliaria o problema de outra pessoa, demonstrando maior equilíbrio e raciocínio mais ponderado. Grossmann & Kross (2014).

O cérebro parece regular melhor as emoções

Além dos estudos comportamentais, pesquisadores também investigaram o que acontece no cérebro durante o uso do diálogo interno em terceira pessoa.

Em um experimento utilizando eletroencefalografia (EEG), participantes foram expostos a imagens emocionalmente desagradáveis enquanto refletiam sobre elas usando a primeira pessoa ou o próprio nome. Os resultados mostraram que o uso da terceira pessoa reduziu rapidamente a resposta emocional sem aumentar indicadores de esforço cognitivo, sugerindo que essa estratégia pode facilitar a regulação emocional de forma relativamente automática. Moser et al. (2017).

Esse achado é importante porque muitas estratégias de controle emocional exigem bastante concentração. O ileísmo, por outro lado, parece produzir parte desse efeito com menor demanda mental.

As pesquisas mais recentes confirmam esses resultados?

Nos últimos anos, novos estudos continuaram investigando o potencial do diálogo interno em terceira pessoa.

Uma pesquisa publicada em 2023 observou que utilizar essa estratégia pode reduzir o sofrimento emocional em adultos durante tarefas que despertam emoções negativas. Os autores concluíram que o autodistanciamento proporcionado pelo uso da terceira pessoa continua sendo uma abordagem promissora para melhorar a regulação emocional, embora ainda sejam necessárias pesquisas com amostras maiores e diferentes populações. Murdoch et al. (2023).

Esses resultados reforçam uma tendência observada ao longo da última década: diferentes pesquisas apontam benefícios consistentes, principalmente relacionados ao processamento emocional e à forma como interpretamos situações difíceis.

O ileísmo funciona para todo mundo?

Apesar dos resultados serem promissores, a resposta é: provavelmente não.

Como acontece com praticamente qualquer intervenção psicológica, os efeitos variam entre indivíduos, contexto e objetivo.

Algumas pessoas conseguem adotar naturalmente essa mudança de perspectiva, enquanto outras podem considerar a técnica pouco intuitiva ou até estranha no início. Além disso, a maior parte dos estudos avaliou situações específicas em ambiente experimental, e não o uso contínuo da estratégia ao longo de vários anos.

Isso significa que ainda existem perguntas importantes sem resposta, como:

  • quais pessoas se beneficiam mais da técnica;
  • qual a frequência ideal de uso;
  • quais efeitos permanecem no longo prazo;
  • como o ileísmo pode complementar outras estratégias psicológicas.

Essas limitações são comuns em pesquisas sobre comportamento humano e não invalidam os resultados encontrados. Apenas indicam que o conhecimento científico continua evoluindo.

O ileísmo substitui a psicoterapia?

Não.

Embora os estudos indiquem benefícios para o controle emocional e o autodistanciamento psicológico, não existem evidências de que falar consigo mesmo na terceira pessoa substitua tratamentos psicológicos ou psiquiátricos quando eles são necessários.

O ileísmo deve ser entendido como uma ferramenta de autorregulação emocional que pode complementar outras estratégias de autocuidado, e não como uma forma de tratar transtornos mentais.

Em casos de ansiedade intensa, depressão, transtorno obsessivo-compulsivo ou outros problemas psicológicos persistentes, a avaliação de um profissional de saúde continua sendo a abordagem mais indicada.

Então, o ileísmo realmente funciona?

Considerando o conjunto das evidências disponíveis, a resposta mais precisa é: sim, mas dentro de limites bem definidos.

Os estudos publicados até o momento sugerem que falar consigo mesmo utilizando o próprio nome ou a terceira pessoa pode facilitar o autodistanciamento psicológico, reduzir a intensidade de algumas respostas emocionais e favorecer decisões mais equilibradas em determinadas situações. Kross et al. (2014); Moser et al. (2017).

Ao mesmo tempo, a literatura científica não apoia interpretações exageradas. O ileísmo não aumenta inteligência, não elimina emoções negativas e não substitui acompanhamento psicológico quando necessário.

Seu principal benefício parece estar em algo bastante específico: ajudar a criar uma pequena distância entre a pessoa e seus próprios pensamentos, tornando mais fácil analisar problemas com maior clareza e menor envolvimento emocional.

Conclusão

As pesquisas científicas realizadas nas últimas décadas indicam que o ileísmo é muito mais do que uma curiosidade linguística. Quando utilizado de forma deliberada, o diálogo interno em terceira pessoa pode favorecer a regulação emocional, diminuir a ruminação e melhorar a qualidade das decisões em diferentes contextos.

Embora ainda existam limitações e diversas perguntas aguardem novas investigações, o conjunto das evidências aponta que essa estratégia representa uma ferramenta simples, acessível e potencialmente útil para desenvolver maior equilíbrio emocional no dia a dia.

Como acontece com qualquer técnica baseada em comportamento, os melhores resultados provavelmente surgem quando ela é utilizada de forma consciente e integrada a outros hábitos saudáveis de autocuidado.

Se você deseja entender melhor esse tema, leia também nosso guia completo sobre ileísmo e descubra como praticar o ileísmo no dia a dia com base nas evidências científicas.

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Perguntas frequentes

O ileísmo realmente funciona?

Os estudos disponíveis indicam que falar consigo mesmo na terceira pessoa pode favorecer a regulação emocional, reduzir a ruminação e melhorar a tomada de decisão em determinadas situações.

Existe comprovação científica?

Sim. Diversos estudos experimentais publicados em revistas científicas investigaram o chamado third-person self-talk e encontraram resultados promissores, embora mais pesquisas ainda sejam necessárias.

O ileísmo ajuda na ansiedade?

Alguns estudos sugerem que a técnica pode reduzir a intensidade das respostas emocionais diante de situações estressantes. No entanto, ela não substitui tratamentos psicológicos ou médicos.

Posso praticar o ileísmo todos os dias?

Sim. Utilizar ocasionalmente o próprio nome durante momentos de reflexão ou tomada de decisão é uma estratégia simples e considerada segura para a maioria das pessoas.

Referências Científicas

  • Kross E, et al. Self-talk as a regulatory mechanism: How you do it matters. Journal of Personality and Social Psychology. 2014. PubMed.
  • Ayduk O, Kross E. From a distance: implications of spontaneous self-distancing. Current Directions in Psychological Science. 2010. PubMed.
  • Grossmann I, Kross E. Exploring Solomon’s paradox. Psychological Science. 2014. PubMed.
  • Moser JS, et al. Third-person self-talk facilitates emotion regulation without engaging cognitive control. Scientific Reports. 2017. PubMed.
  • Murdoch A, et al. Third-person self-talk reduces distress in adults. 2023. PubMed.
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